O ouro recuou nesta sessão, pressionado por uma combinação que já virou clichê nas mesas de operação, a saber, tensões renovadas no Oriente Médio e dados de emprego nos Estados Unidos puxando o dólar para cima. A leitura preguiçosa, aquela que sai nos terminais e é repetida por noventa por cento dos analistas que aparecem na televisão, diz que o metal caiu porque o risco diminuiu e a economia americana está forte. Quer dizer, é exatamente o oposto do que está acontecendo, mas ninguém parece disposto a admitir.
Olha, quando o ouro recua não é porque o mundo ficou mais seguro. É porque, naquele dia específico, a impressora americana conseguiu disfarçar melhor o estrago. O dólar sobe contra outras moedas de papel e isso, mecanicamente, faz o ouro precificado em dólar parecer mais barato. É contabilidade, não realidade. A realidade é que o estoque global de ouro cresce a um por cento ao ano enquanto a base monetária dos bancos centrais cresce em ritmo que envergonharia uma colônia de coelhos. Adivinhe qual dos dois vai valer mais daqui a uma década.
Os dados de emprego nos Estados Unidos merecem capítulo à parte. Toda vez que sai um número forte, o mercado interpreta como sinal de economia robusta e aposta em juros altos por mais tempo, o que machuca ativos sem rendimento como o metal amarelo. Só que ninguém olha de onde vem esse emprego. Boa parte é setor público inchado, é trabalhador de meio período contado como integral, é gente que tem dois ou três empregos sendo contada como duas ou três pessoas empregadas. A estatística é uma maquiagem que o departamento do trabalho aplica em si mesmo para não escarar diante do espelho.
Sobre o Oriente Médio, me diz uma coisa, há quantas décadas o mercado precifica e despreficia o mesmo barril de pólvora? A região virou um botão que operadores apertam quando precisam justificar movimento. Hoje pesa, amanhã não pesa, e a única coisa que efetivamente importa, ou seja, quem está financiando quem, quem vende armas para quem, quem cobra a comissão no meio do caminho, isso ninguém comenta. Siga o dinheiro e você encontrará os mesmos contratantes do Pentágono, os mesmos fundos, os mesmos bancos que lucram com a guerra continuada e com a paz adiada. O ouro sobe ou desce de acordo com a conveniência narrativa do dia.
O que está em curso, e o pequeno investidor brasileiro precisa enxergar isto com clareza cirúrgica, é uma transferência silenciosa de riqueza dos que poupam em moeda fiduciária para os que detêm ativos escassos. Não é teoria, é aritmética. Quando a base monetária dobra em uma década e o estoque de ouro mal se mexe, qualquer estudante de ensino médio com uma calculadora consegue prever o desfecho. A queda de hoje é ruído. A tendência de fundo é a destruição lenta e contínua do poder de compra de quem confia no papel que o governo imprime.
Bancos centrais do mundo inteiro, especialmente os da China, Rússia, Índia e Turquia, compraram ouro em ritmo recorde nos últimos três anos. Eles sabem de algo que o noticiário insiste em esconder do varejo. Enquanto a manchete grita queda, os cofres dos governos que efetivamente entendem o jogo continuam acumulando o metal que não pode ser impresso por decreto. A cada movimento de baixa, eles agradecem o desconto e voltam para a fila do comprador. O resto é teatro para entreter quem ainda acredita que o dólar é dinheiro de verdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.