Um em cada dez pacientes que tomam GLP-1 simplesmente não responde ao tratamento. Não porque seguiu o protocolo errado, não porque comeu em excesso, não porque faltou disciplina. A resistência é genética, está inscrita no DNA de aproximadamente 10% da população, e a ciência ainda trata o fenômeno como "misterioso". Isso, por si só, já deveria dar pausa a qualquer pessoa que confiou num processo de aprovação regulatória como garantia de eficácia universal.

O Ozempic, junto com o Wegovy e demais representantes da classe dos GLP-1, se tornou um dos fenômenos farmacêuticos mais lucrativos da história recente. A empresa que fabrica o medicamento chegou a ser avaliada em mais de 500 bilhões de dólares no auge da febre, ultrapassando o PIB do país onde foi fundada. Seguradoras passaram a cobrir o tratamento. Médicos receitam com desenvoltura. O consenso científico se formou com velocidade impressionante, como costuma acontecer quando há dinheiro suficiente empurrando numa mesma direção. A pergunta que poucos faziam era simples: funciona para todos? A resposta, descoberta agora, é não.

Pense nas pessoas que tentaram o tratamento, falharam e foram informadas de que o problema era delas. Que precisavam se esforçar mais, combinar com dieta rigorosa, ter paciência. A narrativa padrão nesses casos sempre responsabiliza o paciente antes de questionar o medicamento, porque questionar o medicamento implica questionar o sistema inteiro que o aprovou, o prescreveu e o cobriu. Esse custo invisível, o do paciente humilhado pela própria resistência genética que não conhecia, não aparece nos estudos clínicos nem nos balanços trimestrais da farmacêutica.

O ponto mais revelador não é que 10% das pessoas resistem ao GLP-1. O ponto revelador é que ninguém sabia disso até agora. O medicamento foi aprovado, massificado, promovido e inserido em protocolos clínicos globais antes que se entendesse completamente o mecanismo pelo qual funciona em quem funciona. A regulação farmacêutica trata aprovação como chegada, quando na verdade é apenas o começo do conhecimento real. O que os ensaios clínicos capturam é uma média, e médias não existem no consultório. Cada paciente é uma variável única, irredutível, e o gene que determina se o tratamento vai funcionar não estava na bula.

Há aqui um padrão que se repete com deprimente regularidade: uma inovação genuína surge, a indústria a amplifica além do que o conhecimento disponível justificaria, o aparato regulatório concede sua bênção, a mídia especializada em saúde escreve as matérias que as assessorias de imprensa gostariam que fossem escritas, e o paciente individual, com sua biologia específica e sua história genética particular, é reduzido a dado estatístico. Quando a exceção aparece, como agora com os 10% resistentes, ela é chamada de "fenômeno misterioso" em vez do que realmente é: o limite do que se sabia quando se decidiu que já se sabia o suficiente.

A resistência genética ao Ozempic não é um escândalo farmacêutico, pelo menos não ainda. É algo mais banal e mais grave: mais uma evidência de que o corpo humano não leu os comunicados de imprensa da fabricante. Cada pessoa é uma equação que nenhum comitê de aprovação, por mais bem-intencionado que seja, tem acesso completo para resolver. O problema não é que a ciência avança por tentativa e erro. O problema é quando o erro tem valor de mercado e o custo é cobrado de quem tenta.

Com informações do InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.