Pois aí está o espetáculo anual da generosidade alheia. O INSS libera o calendário do 13º em duas parcelas, entre 24 de abril e 8 de junho, e a imprensa corre para explicar como consultar o valor, como acessar o Meu INSS, como agradecer ao benfeitor. Ninguém, absolutamente ninguém, para para perguntar de onde sai esse dinheiro. A resposta é constrangedora justamente por ser óbvia: sai de quem trabalha hoje, via contribuição compulsória, para pagar quem contribuiu ontem, num esquema que qualquer promotor decente chamaria de pirâmide se fosse montado por um particular.

O truque retórico é antigo e eficiente. Chama-se de benefício o que é devolução parcial, chama-se de conquista o que é obrigação contratual, e chama-se de política social o que é aritmética demográfica em colapso. O aposentado recebe o que lhe é devido, claro, e merece cada centavo. O problema não está nele. O problema está no arranjo que transforma o pagamento de uma dívida em ato de bondade do pagador, como se o devedor estivesse fazendo favor ao credor na hora de quitar a conta.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais feia. A contribuição previdenciária é uma das maiores mordidas do contracheque brasileiro, soma-se ao INSS patronal que encarece cada emprego formal, e ainda assim o sistema é deficitário há décadas. Ou seja, cobra-se pesado, entrega-se pouco, e quando chega a hora de pagar o que foi prometido, precisa-se recorrer ao Tesouro, que por sua vez recorre à emissão de dívida, que por sua vez será paga com mais imposto ou com mais inflação. O aposentado recebe mil reais e, quando vai ao supermercado, descobre que esses mil reais compram o que oitocentos compravam no ano passado. Eis o 13º real, o que não aparece no extrato.

Há aqui uma lição que o brasileiro se recusa a aprender por puro hábito de servidão. Todo sistema em que o Estado se coloca como intermediário obrigatório entre o cidadão e seu próprio futuro termina do mesmo jeito: o intermediário fica com a gordura, o cidadão fica com a promessa, e a conta fica para os filhos. Se cada trabalhador pudesse capitalizar sozinho o que o INSS confisca compulsoriamente todo mês, aposentaria-se com patrimônio, não com esmola mensal indexada à boa vontade do Congresso. Mas aí não teria lobby, não teria cabide de emprego na autarquia, não teria discurso de campanha.

E note a perversidade fina do calendário fracionado. Paga-se em duas parcelas porque o caixa não aguenta pagar de uma vez, e ainda se vende o parcelamento como organização administrativa. É o devedor inadimplente explicando ao credor que está dividindo a quitação por zelo contábil. Quem acredita, merece. Enquanto isso, a máquina que administra essa miséria consome bilhões em custeio, em sistemas que caem, em filas que não andam, em perícias marcadas para dali a oito meses. O idoso espera sentado, literalmente, porque a estrutura que deveria servi-lo foi desenhada para servir a si mesma.

O 13º chega, os boletos serão pagos, o comércio comemora, a manchete será positiva. E no mês seguinte tudo volta ao lugar: a inflação come o que sobrou, o imposto cobra a festa, e o ciclo recomeça. A única coisa que o aposentado brasileiro não recebe de 13º é a verdade sobre quem, afinal, está pagando essa conta. Spoiler incômodo: é ele mesmo, em três tempos, e com juros.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.