A cena merece ser saboreada com calma. O painel consultivo do governo japonês, aquele mesmo aparelho que durante três décadas aplaudiu juros negativos, compras maciças de títulos e a transformação do Banco do Japão em maior credor do próprio Tesouro, agora sai a público pedir cautela antes da decisão de juros de junho. Cautela. A palavra que se usa quando o motorista já bateu o carro duas vezes e a família reza para que ele não pegue a chave da terceira. O recado é translúcido: por favor, não suba os juros rápido demais, porque ninguém aqui sabe o que acontece quando a festa do dinheiro de graça acaba de verdade.
Convém lembrar de onde se partiu. O Japão é o laboratório vivo do experimento monetário mais longo da história moderna. Foram décadas com taxa zero, anos com taxa negativa, e um banco central que comprou tantos títulos públicos e tantos fundos de ações que virou, na prática, o maior acionista da bolsa de Tóquio e o maior financiador da farra fiscal do Estado. Tudo isso vendido como remédio temporário contra a deflação. Temporário, como costuma ser tudo aquilo que o governo inventa para resolver o problema que o governo mesmo criou. Trinta anos depois, o paciente está viciado no remédio e o médico tem medo de cortar a dose.
É aqui que o pedido de cautela ganha sabor. Quem pede cautela ao banco central não é o aposentado que vê o iene apodrecer no bolso, não é a dona de casa que enfrenta supermercado mais caro a cada visita, não é o jovem que jamais comprará casa em Tóquio. Quem pede cautela é o painel do governo, ou seja, a turma cujo emprego, cujo orçamento, cujas obras públicas e cujos amigos dependem de juros artificialmente baixos para rolar uma dívida pública que já passou de duzentos e cinquenta por cento do PIB. Siga o dinheiro e a tradução é simples: se o juro subir de verdade, o serviço da dívida explode, o Tesouro engasga, e a mágica acaba. Cautela, nesse dicionário, significa continuem subsidiando minha incompetência mais um trimestre.
O que ninguém quer dizer em voz alta é que não existe saída indolor. Juros baixos eternos corroem a poupança, distorcem o cálculo empresarial, transformam empresas zumbis em paisagem permanente e empurram capital para especulação porque o investimento produtivo deixa de fazer sentido. Juros que sobem revelam, de uma só vez, todos os projetos que só existiam por causa do dinheiro barato; é o momento em que a maré baixa e se descobre quem estava nadando pelado. O Banco do Japão não tem como escolher entre dor e ausência de dor. Tem que escolher entre dor agora, administrável, e dor depois, catastrófica. E a turma do painel, claro, prefere depois, porque depois já será problema de outro governo, de outro presidente do banco, de outra geração de japoneses.
Há um aspecto ainda mais incômodo, que é o silêncio sobre o que efetivamente se vê e o que não se vê. Vê-se o título do jornal, vê-se a recomendação técnica, vê-se a coreografia institucional. Não se vê o pequeno empresário que faliu porque concorreu durante anos com zumbis sustentados por crédito subsidiado. Não se vê o jovem que adiou casamento, filho e casa porque o salário real encolheu enquanto Tóquio inflava ativos financeiros. Não se vê o aposentado que viu seus rendimentos virarem pó porque o governo decidiu que poupar era antipatriótico. Cada ponto a menos na taxa básica, comemorado no editorial, corresponde a uma transferência silenciosa de riqueza dos que produzem para os que se financiam. O Japão é só a versão mais avançada do mesmo truque que se repete em Brasília, em Washington, em Frankfurt.
O detalhe brasileiro merece registro porque o roteiro é familiar. Toda vez que alguém aqui sugere que o Banco Central precisa segurar inflação a sério, surge o coro dos painéis, dos conselhos, das comissões, todos pedindo, com aquele ar de adulto responsável, mais cautela, mais gradualismo, mais sensibilidade ao crescimento. Tradução: mais inflação, mais imposto invisível, mais desvalorização da moeda para que o setor público continue rolando suas dívidas e seus compromissos eleitorais. Aprender com o Japão seria entender que não há almoço grátis, que três décadas de impressora ligada não geraram prosperidade, geraram estagnação envernizada com gráficos bonitos. Mas aprender exige humildade, e humildade não consta no organograma de banco central nenhum.
No fim das contas, o pedido de cautela é a confissão involuntária da falência do experimento. Quando o próprio governo precisa pedir gentileza ao banco central que ele mesmo controla, está admitindo, sem querer, que a casa está construída sobre pilastras de papel. A pergunta não é se a conta chega, é em qual geração ela chega inteira. Quando o devedor tem medo do credor, o devedor manda. Quando o devedor é o próprio governo e o credor é o banco central que o governo nomeia, ninguém manda, todo mundo finge, e a fatura vai sendo empurrada para os filhos. O Japão de hoje é o aviso que o mundo inteiro recebe e finge não ter lido.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.