A Pantheon Resources, empresa de exploração de petróleo listada em Londres com ativos no Alasca, comunicou ao mercado a concessão de 13 milhões de unidades de ações restritas, as chamadas RSUs, a executivos e colaboradores selecionados. A nota é curta, o eufemismo é generoso e o mecanismo é antigo. Traduzindo do corporativês para o português: uma fatia da empresa foi redistribuída internamente, de preferência para quem já estava no andar de cima, e os acionistas ordinários acordarão com suas cotas ligeiramente diluídas, como sempre, sem aviso prévio e sem nada em troca.
O instrumento em questão, as ações restritas, foi inventado para parecer virtuoso. A narrativa oficial diz que alinha os interesses dos executivos com os dos acionistas, porque os gestores só lucram se a empresa crescer. Belo argumento. Acontece que o crescimento do valor da ação pode ser fabricado por recompra de papéis, corte de custos que destroem capacidade produtiva futura, alavancagem criativa e uma boa dose de relações públicas bem direcionadas. O executivo embolsa a valorização, distribui os bônus, e quando o edifício desaba, ele já terá exercido as opções e saído pela porta dos fundos com um pacote de saída que envergonharia um aristocrata do século XVIII.
Há uma lógica perversa no coração desse sistema. A empresa não está pagando esses 13 milhões de unidades com dinheiro que saiu do próprio bolso dos diretores. Está pagando com a propriedade diluída de quem comprou ações no mercado aberto, acreditando que estava adquirindo um pedaço real de um negócio real. Cada RSU concedida é uma subtração silenciosa do valor por ação dos demais. Não aparece na demonstração de resultados como despesa visível, não gera manchete, não provoca assembleia. Simplesmente acontece, como uma sangria lenta que o paciente só percebe quando já está tonto.
A Pantheon Resources está em fase de exploração no Alasca, o que significa, em linguagem direta, que ainda não produz caixa operacional significativo. Uma empresa que queima capital para provar a viabilidade de seus ativos decidiu, neste exato momento, distribuir 13 milhões de unidades de compensação para seus próprios administradores. Quer dizer, antes de provar que o óleo está lá em quantidade comercial, antes de gerar o primeiro dólar de receita consistente, os de dentro já garantiram a fatia deles. O risco fica com o acionista. A recompensa, com o executivo. Essa é a estrutura. Não é acidente, é arquitetura.
O que chama atenção não é o caso específico, que é banal ao ponto da mediocridade. O que chama atenção é a naturalidade com que o mercado absorve esse tipo de comunicado. Treze milhões de unidades aparecem num press release de três parágrafos, os algoritmos processam, o volume de negociação segue igual, e a vida continua. A normalização da pilhagem legal é talvez o maior triunfo da engenharia financeira do século XX: transformar o que seria, em qualquer análise honesta, uma transferência de valor dos donos para os gestores, num ritual de governança corporativa responsável. Mudaram a linguagem e, com ela, mudaram a percepção. O rei está nu, mas o comunicado de imprensa é muito bem redigido.
A questão de fundo não é se executivos merecem compensação, porque obviamente merecem. A questão é quem define quanto, quem aprova o plano de RSUs, quem senta no comitê de remuneração, e se esses mesmos indivíduos têm algum interesse no generoso pacote que estão aprovando. Historicamente, a resposta é que os comitês de remuneração são compostos por outros executivos de outras empresas, que por sua vez têm seus próprios pacotes de RSUs aprovados por outros comitês com outros executivos. O conluio não precisa ser explícito para funcionar. Basta que todo mundo entenda as regras do clube. E as regras do clube são simples: você aprova o meu, eu aprovo o seu, e o acionista que se vire.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.