Papa Leão decidiu sinalizar ao mundo que a Igreja Católica precisa parar de "focar tanto" em questões sexuais, declaração que soa progressista nos ouvidos do colunista da Folha e como capitulação nos ouvidos de qualquer um que ainda leu três páginas do catecismo. Quer dizer, a instituição que sobreviveu a imperadores romanos, invasões bárbaras, cisma do oriente, reforma protestante e duas guerras mundiais agora resolveu que o problema dela é ter opinião demais sobre como as pessoas usam o próprio corpo. Olha, isto não é renovação pastoral, isto é rendição cultural travestida de misericórdia.

Existe um truque retórico antiquíssimo que todo poder em decadência aprende a executar com maestria, e consiste em chamar de "obsessão" aquilo que é simplesmente "ensino consistente". A Igreja nunca foi obcecada por sexo, ela apenas se recusou a fingir que a doutrina dela mudava conforme a moda parisiense da temporada. Quando um pontífice fala em "menos foco", ele está admitindo que o foco do mundo agora dita o foco do altar, o que é uma inversão tão completa da lógica institucional que daria risada se não desse pena.

Me diz uma coisa, qual é exatamente o produto que uma Igreja oferece quando abre mão de ensinar moral? Bondade genérica, todo mundo já tem na ONG do bairro. Espiritualidade vaga, a livraria do aeroporto vende mais barato. Acolhimento sem juízo, qualquer terapeuta de Pinheiros faz por seiscentos reais a sessão. A força histórica do catolicismo nunca esteve em concordar com o século, esteve precisamente em discordar dele quando o século estava errado, e foi essa teimosia milenar que fez catedrais, universidades e hospitais surgirem do nada em meio a continentes que cultuavam pedra.

Aqui mora a parte cômica do arranjo, porque toda essa abertura nunca é gratuita, sempre serve a alguém. As fundações que financiam congressos teológicos "modernizantes" são as mesmas que financiam ativismo demográfico há cinquenta anos, e os bispos que recitam o vocabulário do momento costumam jantar com o tipo de gente que nunca botou o pé numa missa de domingo. Há uma indústria inteira interessada em transformar a maior instituição moral do ocidente numa filial benevolente do espírito da época, e ela paga muito bem por cada centímetro de recuo doutrinário disfarçado de "diálogo".

O que se vê é o pontífice popular, querido pela imprensa, citado pelos editorialistas. O que não se vê é o jovem que entra numa igreja procurando uma rocha e encontra uma esponja, é a vocação que evapora quando a instituição parece envergonhada de si mesma, é o vazio existencial deixado por uma civilização que demoliu seus templos achando que a beleza ia continuar de pé sozinha. Toda concessão moral feita em nome da relevância produziu, sem exceção histórica, exatamente o oposto da relevância.

Existe uma cerca antiga em torno do ensino moral cristão, e ela foi construída por gerações que entendiam de natureza humana muito mais do que qualquer comissão episcopal contemporânea reunida em sala climatizada com PowerPoint. Antes de derrubar a cerca, convém perguntar por que ela foi posta ali, e a resposta nunca foi "porque a Igreja gostava de incomodar". A resposta foi "porque sem ela o homem se perde, a família se desfaz e a civilização entra em colapso demográfico", e é justamente este o noticiário europeu dos últimos trinta anos. A instituição que para de ensinar o que sabe acaba ensinando o que ignora, e o que ela ignora normalmente é o motivo pelo qual existia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.