Paris abriu apuração formal depois que veio à tona a acusação de que mulheres teriam sido removidas de suas funções na Torre Eiffel para não constranger uma comitiva hindu em visita ao ponto turístico. A denúncia partiu de dentro, chegou à imprensa, e agora a prefeitura tenta descobrir se foi ordem de cima, iniciativa de gerente com medo do próprio cargo, ou improviso servil daqueles que confundem hospitalidade com humilhação. Qualquer que seja a resposta, ela já é constrangedora, porque a pergunta sequer deveria existir num país que gosta de se apresentar ao mundo como berço dos direitos universais.

Repare no absurdo da cena antes de qualquer análise. Uma nação que passou dois séculos exportando manifestos sobre igualdade, que estampa mulheres em suas notas de euro, que faz da laicidade um artigo de fé cívica, esconde funcionárias como quem cobre um móvel feio antes da chegada da sogra. E esconde por quê? Porque um grupo de visitantes talvez, quem sabe, hipoteticamente se ofendesse ao ser atendido por uma pessoa do sexo feminino. Ninguém precisou pedir. Alguém ali, com salário pago por contribuinte francês, achou que era melhor prevenir o desagrado imaginário do que sustentar o princípio real.

É aqui que a história econômica encontra a história moral, porque a covardia sempre custa dinheiro. Quando um monumento público, sustentado por imposto, subordina suas regras internas ao gosto presumido de um cliente, ele deixou de ser instituição e virou concessionária. E toda concessionária, cedo ou tarde, aceita qualquer contrato desde que o cheque compense. Hoje some a atendente, amanhã some o cardápio, depois de amanhã some o cartaz que ofende alguém do outro lado do mundo. Cada recuo é apresentado como gentileza, e cada gentileza dessas custa um pedaço da coisa que o Ocidente jurou nunca mais negociar.

Note também o silêncio ensurdecedor das feministas profissionais, aquelas que gastam horas debatendo o uso da palavra correta em documento acadêmico, mas ficam mudas quando trabalhadoras de carne e osso são varridas do posto para agradar visitante estrangeiro. O feminismo institucional europeu tem energia sobrando para condenar padre de vilarejo, empresário conservador e escritor incômodo, mas emudece diante de qualquer grupo cujo constrangimento possa custar contrato, turismo ou likes de embaixada. É uma coreografia previsível, e o público já decorou os passos.

Há ainda o detalhe cultural que ninguém no jornalismo bem comportado quer tocar. A Índia é uma democracia gigantesca, com mulheres em cargos altíssimos, cientistas premiadas, empresárias globais e uma vice-presidência histórica ocupada por figuras femininas. Ou seja, mesmo que a delegação fosse hindu praticante, tratá-la como se fosse composta por homens incapazes de conviver com uma mulher francesa uniformizada é, no fundo, um insulto disfarçado de deferência. O paternalismo europeu virou tão fino que já ofende dos dois lados ao mesmo tempo, uma proeza que só a burocracia moderna consegue realizar.

No fim, o que a Torre Eiffel exibiu não foi respeito à diferença, foi entrega antecipada. Uma civilização que retira suas próprias mulheres do trabalho para não perturbar hóspede algum já perdeu antes de qualquer confronto. E quando uma cultura começa a esconder o que tem de melhor por medo de ofender quem chega, ela não está sendo tolerante, está fazendo as malas por dentro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.