A Partners Group, uma das maiores gestoras de mercado privado do mundo, está enfrentando uma onda de resgates que expõe a fragilidade estrutural de uma indústria que passou quinze anos vendendo a fantasia de que iliquidez era um recurso, não um defeito. O estresse no mercado privado, eufemismo elegante para "o emperor has no clothes", finalmente está sendo precificado, e os fundos que cobravam dois por cento de taxa fixa mais vinte por cento de performance para trancar dinheiro alheio descobrem que a maré baixa revela quem estava nadando pelado.
Olha, a história aqui é antiga e se repete com pontualidade britânica. Toda vez que o banco central de plantão inunda o mundo com liquidez artificial, surge uma classe de ativos "inovadora" que promete retornos superiores aos da bolsa pública. O truque é sempre o mesmo: você esconde a volatilidade não a eliminando, mas simplesmente recusando-se a marcar o ativo a mercado. Se ninguém precifica, ninguém sofre. Funciona lindamente até o dia em que alguém precisa do dinheiro de volta, e aí a marcação fictícia encontra a realidade cruel do comprador que não aparece.
Quer dizer, ninguém parou para perguntar de onde vinha esse retorno extraordinário do private equity. Estava vindo de alavancagem barata, comprando empresas com dívida emitida a juros artificialmente reprimidos pelo banco central, vestindo as empresas com cortes de custo e engenharia financeira, e revendendo para o próximo otário da fila enquanto a música tocava. Era uma cadeira musical institucionalizada, com taxas. E agora que o custo do dinheiro voltou ao mundo dos vivos, a estrutura inteira range. As empresas alavancadas não conseguem refinanciar, os múltiplos comprimem, os exits travam, e os investidores que acreditaram que estavam diversificando, na verdade, estavam concentrando risco numa apólice de seguro escrita com tinta invisível.
Me diz uma coisa, qual é a graça de um ativo que rende dez por cento ao ano em condições normais mas que você não pode vender quando precisa? É o equivalente financeiro de um carro esporte sem freios: anda lindo enquanto a estrada é reta. Os fundos de pensão, as fundações universitárias, os family offices, todos foram empurrados para esse balcão pelos consultores que ganham comissão da gestora, num arranjo de captura tão evidente que só não enxerga quem não quer. E aquilo que parecia descorrelação na planilha era apenas atraso na precificação. A correlação verdadeira aparece justamente quando você mais precisa que ela não apareça.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara ainda. A indústria de private equity inflou de três trilhões para mais de treze trilhões de dólares em quinze anos não porque descobriu uma forma genial de criar valor, mas porque o dinheiro barato precisava ir para algum lugar e os gestores cobravam taxas que financiavam jatos, mansões e exércitos de lobistas em Washington e Bruxelas para garantir que o regime tributário continuasse benevolente com carried interest. Enquanto isso, o trabalhador comum, cujo fundo de pensão foi alocado nessa roleta, descobre agora que o resgate dele depende da boa vontade do gestor para abrir a janela de saída. E a janela, surpresa, está fechando.
O que se vê é a manchete sóbria sobre "estresse no mercado privado". O que não se vê é o trabalhador suíço, americano, holandês, brasileiro, cuja aposentadoria foi parar nesse lamaçal porque algum consultor com terno caro convenceu o conselho do fundo de pensão de que isso era prudente. Não era prudente. Era moda, era taxa, era marketing, era tudo menos prudência. A próxima década vai ser feita de descobertas dolorosas sobre o que valia mesmo cada um desses ativos guardados na gaveta. E a conta, como sempre, será paga por quem nem sabia que estava jogando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.