O Monte dei Paschi di Siena, o banco mais antigo do mundo ainda em operação, fundado em 1472, acaba de protagonizar uma cena que deveria ser estudada em qualquer curso sério sobre governança corporativa. O conselho de administração demitiu o CEO Luigi Lovaglio em março, formalizou a degola em 8 de abril, e tentou empurrar Fabrizio Palermo como substituto. Motivo oficial: divergência sobre a integração da Mediobanca. Motivo real: Lovaglio desafiou os interesses do empresário Francesco Gaetano Caltagirone, que preferia manter a Mediobanca listada em bolsa para preservar sua própria posição no tabuleiro. Pois bem. Na assembleia de 15 de abril, os acionistas olharam para os números, olharam para o conselho, e escolheram os números. A lista que apoiava Lovaglio obteve quase 50% do capital presente. A ação de responsabilidade contra ele, proposta pela Bluebell Partners, foi rejeitada por 96,49% dos votos. O golpe palaciano virou fiasco público.

Convém lembrar de onde veio este banco. Em 2017, o Tesouro italiano injetou bilhões de euros do contribuinte para salvar o MPS de um colapso que a própria gestão estatal e o emaranhado regulatório europeu ajudaram a criar. O governo chegou a deter 68% do banco. Foi aquele espetáculo habitual: socializa-se o prejuízo, privatizam-se os discursos sobre "responsabilidade fiscal". Lovaglio assumiu em 2022 uma instituição que era sinônimo de incompetência burocrática e escândalo financeiro. Em três anos, transformou o cadáver em máquina de lucro: receita de 4,56 bilhões de euros em 2025, alta de quase 28% sobre o ano anterior, lucro de 2,72 bilhões com crescimento de 39%. Liderou a aquisição hostil da Mediobanca, obtendo 86,3% das ações. Prometeu 16 bilhões de euros em dividendos até 2030. A ação saiu de 3,72 euros na mínima para mais de 7 euros. O homem entregou resultados concretos, mensuráveis, verificáveis. E o conselho quis tirá-lo.

A pergunta que ninguém faz, mas que define tudo: a quem o conselho respondia? Porque não era aos acionistas. A participação do Tesouro italiano, que já foi de 39,2%, caiu para 11,7% ao longo de 2024, vendida a retalho para Caltagirone, para a Delfin dos herdeiros Del Vecchio, para o mercado. O governo se retirou do capital, mas os vícios da governança estatal ficaram impregnados na madeira. O conselho agiu como se ainda fosse um apêndice do Ministério da Economia, decidindo de cima para baixo quem merecia o cargo, sem consultar quem de fato paga a conta. A Delfin, com 17,5%, a BlackRock, com 5%, o fundo soberano norueguês Norges Bank, com 3,1%, e o BancoBPM, com 3,7%, todos se alinharam atrás de Lovaglio. Gente que coloca dinheiro próprio na mesa contra gente que coloca a poltrona própria em primeiro lugar.

Olha, o caso do Monte dei Paschi é quase uma parábola sobre o que acontece quando o dinheiro dos outros encontra o ego dos burocratas. Caltagirone queria preservar a Mediobanca listada por razões que têm muito menos a ver com estratégia bancária e muito mais com a manutenção do seu próprio peso no jogo financeiro italiano. O conselho, em vez de servir aos acionistas, serviu a um arranjo de poder que beneficiava um grupo específico. Isso tem nome: captura. E é exatamente o que acontece toda vez que instituições criadas para proteger os donos do capital são sequestradas por quem administra o capital alheio. A diferença entre o burocrata e o investidor é que o burocrata erra com o dinheiro dos outros e não perde o emprego; o investidor erra com o próprio dinheiro e perde tudo. Quando os investidores falam, como falaram no dia 15 de abril, é porque a paciência com a incompetência protegida acabou.

O mais revelador, porém, não é a vitória de Lovaglio. É o que ela diz sobre a ficção da "governança corporativa" quando contaminada por anos de tutela estatal. O governo italiano transformou o MPS num instrumento político durante décadas, encheu o banco de nomeações partidárias, deixou a gestão apodrecer, e quando a conta chegou, mandou o contribuinte pagar. Agora que o banco finalmente funciona sob gestão competente, os resquícios daquela cultura tentaram repetir o padrão: remover quem entrega resultado para instalar quem obedece. Não funcionou desta vez porque o capital privado já é majoritário e, ao contrário do Tesouro, não tolera prejuízo por conveniência política. Mas o episódio serve de aviso para qualquer país que ainda acredita que o Estado é um bom acionista. O Estado é o tipo de dono que quebra o brinquedo e manda você consertar com o seu dinheiro.

Luigi Lovaglio volta ao comando com mandato popular, se é que se pode chamar assim o voto de quem realmente tem pele no jogo. O desafio agora é a execução da fusão completa com a Mediobanca e a convivência com um Caltagirone derrotado mas não eliminado. Mas a lição já está dada, e é antiga como o próprio banco de Siena: quem produz resultados sobrevive; quem conspira nos corredores eventualmente é exposto pela luz da assembleia. A conta sempre chega, e quem decide é quem paga.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.