Patrick Firth assume cadeira no conselho do Schiehallion Fund em julho, e o anúncio chega embrulhado naquela linguagem corporativa que serve para anestesiar o leitor antes que ele faça a pergunta óbvia. Quem é Patrick Firth? Por que ele? Quanto recebe para sentar nessa cadeira? E, mais importante, o que muda concretamente para o cotista que confiou seu dinheiro a esse veículo de investimento em empresas privadas de crescimento? A resposta honesta, que nenhum release jamais entregará, é que muda muito pouco para quem paga a conta e muda bastante para quem agora terá direito a honorários, jantares e acesso a um circuito fechado de informações privilegiadas.
O Schiehallion é um daqueles fundos listados em Londres que prometem ao investidor comum uma fatia das empresas de tecnologia privadas antes do IPO, aquelas joias inacessíveis ao mortal que não tem cheque de cem milhões de dólares para entregar à Sequoia ou à Andreessen. A ideia é elegante no papel. Na prática, é o velho truque de transformar iliquidez em narrativa de exclusividade, cobrar taxa de administração sobre ativos cuja precificação ninguém consegue verificar de verdade, e contar com a paciência forçada do cotista que descobre, tarde demais, que sair custa caro e que o valor patrimonial no relatório trimestral é um exercício de fé.
A indústria de fundos descobriu há muito tempo que conselhos de administração são instrumentos de legitimação, não de fiscalização. Você escolhe nomes respeitáveis, com currículo no setor financeiro de Guernsey, das Ilhas Cayman ou de Jersey, paga uma remuneração simpática pelos comparecimentos anuais, e em troca recebe a aparência de governança independente que tranquiliza o regulador e seduz o investidor institucional. Firth tem trajetória nesse universo, passou por outros conselhos, conhece o roteiro. Não é acusação contra ele especificamente. É descrição de um sistema em que os mesmos nomes giram entre as mesmas cadeiras, num carrossel que se autoalimenta e se autovalida.
Olha, o detalhe que ninguém comenta é que o investidor de varejo que compra cotas de um fundo desses está pagando, simultaneamente, três camadas de gente sentada confortavelmente. Paga o gestor, que decide onde alocar. Paga o administrador, que cuida do operacional. E paga o conselho, que supostamente fiscaliza os outros dois. Quando algo dá errado, e em fundos de venture capital privado dá errado com frequência industrial, a conta sempre desce, nunca sobe. O conselheiro segue para a próxima cadeira, o gestor justifica o desempenho com powerpoint, e o cotista descobre que paciência de longo prazo, na boca da indústria, é eufemismo para perdas sem culpado identificável.
Há ainda o pano de fundo macroeconômico que torna a notícia menos inocente do que parece. Fundos de growth equity floresceram durante a era do dinheiro barato, quando o crédito artificialmente expandido pelos bancos centrais inundou o sistema e qualquer empresa com slide deck bonito conseguia valuation de bilhões. Agora que a maré recuou e os juros voltaram a existir, esses veículos enfrentam o destino de todas as construções erguidas sobre liquidez gratuita, marcações a mercado dolorosas, saídas adiadas, IPOs que não acontecem, e a necessidade urgente de reforçar conselhos com nomes que transmitam solidez. Reforçar a fachada quando o alicerce treme é técnica antiga, e funciona até parar de funcionar.
O cotista atento deveria ler esse tipo de comunicado não como notícia de governança, mas como sintoma. Cada novo conselheiro, cada novo comitê, cada nova camada de supervisão é uma despesa adicional cobrada de quem confiou o dinheiro. E nenhuma quantidade de currículo impressionante substitui a pergunta que nenhum prospecto responde com honestidade, quem ganha quando o fundo ganha, e quem perde quando o fundo perde? A resposta, descoberta sempre tarde, é que os primeiros são poucos e identificáveis, e os segundos são muitos e anônimos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.