Existe uma fraude intelectual circulando há décadas nas faculdades de economia e nos editoriais dos jornais grandes, e ela funciona mais ou menos assim: se você defende a soberania do seu país, você é protecionista; se é protecionista, é inimigo do livre mercado; logo, todo nacionalista é socialista disfarçado. O silogismo é sedutor e completamente torto, porque confunde duas coisas que não têm nada a ver uma com a outra. Uma coisa é o nacionalismo imperialista, aquele que quer anexar o vizinho, fechar a economia, erguer tarifa para proteger oligarquia industrial doméstica e mandar o exército desenhar mapa. Outra coisa, completamente diferente, é o amor pela comunidade concreta, pela língua que se fala com a mãe, pela paisagem da infância, pelo conjunto de costumes que fazem um povo ser aquele povo e não outro qualquer. A primeira é doença. A segunda é pré-condição de qualquer ordem livre que se pretenda durável.
Olha, a confusão não é acidente. Ela serve a alguém. Serve exatamente àquela casta transnacional que precisa dissolver lealdades locais para operar sem fricção, que chama de atraso qualquer resistência a contratos supranacionais, que patrocina ONG em Genebra para decidir o que agricultor no interior de Goiás pode plantar. Essa gente descobriu, décadas atrás, que a palavra nacionalismo dava medo depois da Segunda Guerra, e passou a usar o medo como cacete retórico contra qualquer forma de autodeterminação. O truque funciona assim: equipara-se o sujeito que não quer ver sua cidade virar favela de imigração descontrolada ao regime que gaseou gente em campo de concentração, e pronto, o debate acabou antes de começar. É desonesto, é grosseiro, e funciona porque a imensa maioria das pessoas não tem tempo nem estômago para desmontar a falácia.
Me diz uma coisa: como é que pode existir livre mercado sem nação? Mercado pressupõe propriedade, propriedade pressupõe lei, lei pressupõe jurisdição, jurisdição pressupõe um corpo político que se reconhece como tal e defende suas regras contra quem as queira violar de fora. Sem comunidade nacional, o contrato não vale, a moeda não circula, o tribunal não julga, o credor não cobra. Quem prega a dissolução das soberanias em nome do mercado global não está defendendo mercado nenhum, está defendendo a substituição de mil jurisdições concorrentes por uma única burocracia centralizada em Bruxelas, Washington ou Davos, que vai escolher o vencedor e o perdedor de cada setor com muito mais arrogância do que qualquer prefeito eleito por gente que fala a mesma língua. Troca-se descentralização real por centralização planetária, e ainda se tem a cara de chamar isso de liberdade.
A tradição liberal autêntica, aquela que nasceu antes de virar marca de laboratório farmacêutico patrocinando evento em hotel cinco estrelas, sempre entendeu isto com clareza cristalina. Autodeterminação é direito individual antes de ser coletivo, porque é o indivíduo concreto que decide sob qual bandeira quer viver, com quem quer comerciar, quais costumes quer preservar. Quando um povo se organiza politicamente a partir do consentimento dos seus membros, o resultado é uma nação pacífica que respeita o vizinho, negocia em vez de invadir, concorre em vez de subjugar. Quando o mesmo povo é forçado a submeter-se a estruturas supranacionais que ele nunca elegeu, o resultado é ressentimento acumulado, voto de protesto, e aí sim aparece o populismo autoritário que os globalistas fingem combater enquanto, na prática, o fabricam todos os dias com sua prepotência.
O Brasil vive essa esquizofrenia de forma particularmente patética. Temos a elite que se envergonha do próprio país, que acha cafona defender indústria nacional mas acha moderno aceitar exigência climática redigida em inglês por consultoria europeia, que chama de atraso o camponês que reza o terço mas chama de vanguarda o burocrata que assina acordo cedendo jurisdição sobre a Amazônia. Essa elite não é liberal coisa nenhuma. É cliente. Vive de contrato com organismo internacional, de palestra paga em dólar, de cadeira em conselho financiado por fundação estrangeira. O liberal de verdade, aquele que leu os clássicos e não só o resumo em slide de MBA, sabe que não existe liberdade econômica sem uma comunidade política que se reconheça, se respeite e defenda suas fronteiras legais contra predador externo e parasita interno.
Amar a própria nação não é querer dominar a alheia. É querer que ela continue existindo, com seus defeitos e virtudes, como lar concreto onde gerações passadas plantaram e gerações futuras colherão. Quem não ama lugar nenhum não respeita lugar nenhum, e quem não respeita lugar nenhum termina engolindo todos em nome de uma abstração qualquer. A escolha verdadeira do nosso tempo não é entre nação e mercado, é entre mil nações que comerciam livremente entre si e um único império administrativo planetário que chama de comércio aquilo que é, na prática, tributo. Fique com as mil. A liberdade mora lá.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.