A Pennant lançou a terceira fase de uma atualização chamada Auxilium e o anúncio circulou pelos portais financeiros com aquele entusiasmo coreografado que já virou gênero literário próprio. Há sempre a mesma estrutura, o mesmo léxico inflado, a mesma promessa de eficiência operacional, escalabilidade, transformação digital, e por aí vai o rosário de palavras que perderam significado de tanto serem repetidas. Olha, quando uma notícia chega ao público sem um único número concreto sobre o que muda na vida de quem usa, sobre quanto custa, sobre quem ganha e quem perde, o que se tem ali não é jornalismo econômico, é release de assessoria fantasiado de reportagem.
Quer dizer, a indústria de software financeiro construiu nas últimas duas décadas um modelo de negócio extraordinariamente engenhoso, que consiste em vender plataformas que se tornam infraestrutura crítica do cliente e depois cobrar atualizações periódicas como se fossem favores divinos. O cliente, preso ao ecossistema, paga porque não pode sair, e a imprensa especializada celebra cada novo lançamento como se fosse a invenção da roda. Cobra-se pela versão, cobra-se pelo suporte, cobra-se pela integração, cobra-se pela migração, e no fim do mês o departamento financeiro daquele banco regional descobre que a conta de tecnologia subiu trinta por cento sem que ninguém saiba explicar exatamente o porquê.
Me diz uma coisa, alguém se perguntou o que existia antes dessa enxurrada de plataformas que prometem resolver problemas que, em muitos casos, elas mesmas inventaram. A digitalização compulsória do setor financeiro foi vendida como modernização inevitável, mas a verdade que ninguém quer dizer em voz alta é que boa parte desse movimento foi empurrada por regulação, pressão de auditoria e medo de ficar para trás na narrativa do progresso. O cliente final, aquele que toma um empréstimo ou abre uma conta, não pediu nada disso, e mesmo assim paga por tudo embutido na taxa, no spread, na tarifa que ninguém entende.
A festa do release note funciona porque convém a todos os envolvidos. Convém à empresa que vende, porque justifica novo ciclo de receita. Convém ao executivo que compra, porque pode apresentar ao conselho que está alinhado com as tendências do setor. Convém ao jornalista especializado, que ganha pauta pronta sem precisar investigar nada. E convém ao regulador, que pode marcar mais uma casinha no formulário da inovação financeira. Só não convém ao consumidor, mas esse já se acostumou a pagar a conta de festas para as quais não foi convidado.
O ponto que merece atenção não é a atualização em si, é o ritual. Cada nova fase, cada novo módulo, cada nova sigla em latim de butique reforça a dependência do cliente em relação ao fornecedor e empurra o mercado para uma concentração crescente, em que meia dúzia de plataformas dominam praticamente todo o back office do sistema financeiro. Quando o software vira infraestrutura, quem controla o software controla o sistema, e essa é uma conversa muito mais séria do que os portais de notícia parecem disposto a ter.
No fim das contas, a Auxilium Fase 3 pode até ser uma boa atualização técnica, e provavelmente é, porque essas empresas sabem o que estão fazendo no plano da engenharia. O problema nunca foi a competência técnica, foi a ausência completa de qualquer pergunta crítica sobre o arranjo econômico que sustenta todo esse circo. Software bom não é o que tem mais funcionalidades, é o que entrega valor real a um custo que o cliente aceitaria pagar se tivesse alternativa. E é exatamente essa palavra, alternativa, que sumiu do vocabulário do setor.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.