Cinco bilhões e seiscentos milhões de dólares em munições gastos nos dois primeiros dias de conflito com o Irã. Dois dias. Releia. Agora o Pentágono bate à porta da General Motors, da Ford, da GE Aerospace e da Oshkosh pedindo, com toda a delicadeza de quem tem o Defense Production Act no bolso, que linhas de montagem de automóveis civis se convertam em fábricas de projéteis e componentes militares. A última vez que isso aconteceu, o mundo estava em guerra mundial. Aparentemente, para Washington, o estado permanente de beligerância já equivale a uma.

Olha, o que temos aqui é uma cena que se repete com precisão quase litúrgica na história americana. O governo embarca em aventuras militares que drenam os arsenais, depois corre atrás da indústria civil para tapar o buraco, e apresenta a conta como "investimento em segurança nacional". O orçamento de defesa proposto já ultrapassa um trilhão e meio de dólares, com um pedido suplementar de cinquenta bilhões só para reposição de armamentos, coordenado pelo vice-secretário Steve Feinberg, que, convém lembrar, veio do mercado de private equity. Quer dizer, o homem sabe montar um deal. A questão é quem está do lado vendedor e quem está do lado comprador nessa transação, porque o contribuinte americano, como sempre, não foi consultado, mas vai pagar.

A mecânica é conhecida e funciona assim: primeiro, guerras que esgotam os estoques; depois, contratos emergenciais que dispensam os trâmites normais de concorrência; por fim, uma base industrial de defesa permanentemente expandida que, uma vez criada, precisa de guerras para se justificar. É a espiral que se alimenta de si mesma. Cada míssil Tomahawk disparado, e a meta agora é produzir mil por ano, cria demanda por mais mísseis Tomahawk, que exigem mais fábricas, que exigem mais orçamento, que exige mais impostos ou, como tem sido a preferência, mais impressão de moeda e mais dívida. O que se vê é a fábrica nova, o emprego criado, o contrato bilionário. O que não se vê são os carros que deixaram de ser produzidos, os empregos civis deslocados, o capital sugado de setores produtivos para alimentar a fornalha da destruição. Ninguém faz a conta do que o mercado teria feito com esses recursos se o governo não os tivesse confiscado antes.

Me diz uma coisa, as ações da GM caíram dois por cento no dia do anúncio. O mercado não está exatamente em êxtase. E por que estaria? As montadoras sabem que armas modernas exigem tolerâncias, cadeias de suprimento e protocolos de segurança radicalmente diferentes de uma picape. O Pentágono fala em "componentes que não exigem instalações de segurança classificada", o que na prática significa que as montadoras fariam o trabalho grosseiro enquanto a Lockheed Martin e a Raytheon ficam com os contratos gordos de alta tecnologia. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais pura: os amigos do rei ficam com a margem, e o chão de fábrica de Detroit fica com a reconversão forçada e a incerteza de contratos que dependem de guerras continuarem existindo.

O Defense Production Act, esse fóssil de 1950 estendido até setembro deste ano, dá ao presidente poderes que fariam qualquer economista sério perder o sono. Empréstimos subsidiados, garantias de compra, subsídios diretos, tudo isso para "expandir a produção industrial doméstica". Na tradução para o português dos fatos, significa que o governo pode obrigar, ou seduzir com dinheiro público, qualquer empresa a produzir o que ele determinar. As conversas com GM e Ford são "voluntárias" por enquanto. A palavra operativa é "por enquanto". Quando um governo que gasta trilhões em guerras pede gentilmente, a gentileza dura exatamente até o momento em que a empresa diz não. O controle do econômico é, sempre foi e sempre será, controle de toda a vida produtiva de uma nação. Começa com munição e termina onde a conveniência política determinar.

O mais revelador, porém, é o silêncio. Ninguém pergunta por que os estoques estão vazios. Ninguém questiona a política externa que consumiu trilhões em décadas de intervenções que não trouxeram paz a lugar nenhum. Ninguém faz a pergunta óbvia, aquela que está ali, na cara de todo mundo, mas que ninguém ousa formular: se a defesa nacional exige a mobilização da indústria civil como em 1943, talvez o problema não seja a capacidade industrial, mas a política que criou a necessidade. Converter fábricas de carros em fábricas de balas não é sinal de força. É confissão de que a máquina de guerra ficou maior que a nação que deveria proteger.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.