A notícia é curta, quase telegráfica, dessas que passam despercebidas entre os leitores apressados do noticiário econômico. A Personal Group, gestora britânica de benefícios corporativos, anunciou a ampliação de sua parceria com a Simplyhealth, provedora de planos de saúde acessíveis. O mercado registrou, os analistas assentiram, e o mundo seguiu girando. Mas quem tem o hábito antigo de olhar por trás do balcão sabe que toda expansão de "parceria estratégica" no setor de benefícios corporativos merece um segundo olhar, porque raramente se trata de duas empresas apenas descobrindo que juntas vendem mais. Há um arranjo maior por trás, e esse arranjo tem nome, endereço e beneficiários bem definidos.

Comecemos pelo óbvio que ninguém quer enxergar. O Reino Unido possui o NHS, aquele sistema público de saúde que a esquerda europeia adora exibir como troféu civilizatório e que na prática funciona com filas que fariam corar um cartório brasileiro dos anos oitenta. Diante do colapso silencioso do serviço estatal, empregadores britânicos são empurrados, quase forçados por decência corporativa, a oferecer planos privados complementares para que seus funcionários consigam marcar um dentista sem esperar oito meses. É nesse vácuo deixado pela ineficiência estatal que empresas como Personal Group e Simplyhealth prosperam. Elas não venceram um mercado livre; elas ocuparam o cadáver deixado pelo monopólio público.

Siga o dinheiro e a história fica mais interessante ainda. Cada libra que o empregador britânico gasta com benefícios de saúde privados é uma libra que ele já pagou em impostos para sustentar o sistema público que não funciona. Ou seja, o trabalhador é tributado duas vezes pela mesma necessidade: uma pelo Estado que promete e não entrega, outra pelo empregador que precisa preencher o buraco. E quem lucra com essa dupla tributação disfarçada? As gestoras de benefícios, que se apresentam como salvadoras quando são apenas parasitas oportunos de uma disfunção fabricada pelo próprio Estado. É o modelo perfeito de capitalismo de compadrio invertido: o governo cria o problema, e a iniciativa privada vende a aspirina.

Não me entenda mal. Não estou aqui para defender a estatização dos benefícios, porque isso seria trocar o parasita pelo carrasco. O ponto é outro e mais fino. Quando uma empresa como a Personal Group comemora ampliação de parceria, o que está sendo realmente comemorado é a consolidação de um mercado que só existe porque o Estado britânico falhou espetacularmente em cumprir aquilo que prometeu por décadas. É crescimento construído sobre disfunção pública, e ninguém tem coragem de dizer isso em voz alta porque a narrativa oficial exige que o NHS seja tratado como patrimônio nacional intocável, mesmo enquanto seus pacientes morrem em macas de corredor.

Há também a questão mais profunda, aquela que os apologistas do welfare state jamais querem discutir. Quando o Estado assume a responsabilidade pela saúde de todos, ele infantiliza o cidadão até que este perca a capacidade de arranjar sua própria proteção. O trabalhador britânico não escolhe seu plano, não negocia sua cobertura, não compara preços; ele recebe o que o empregador contratou de uma gestora que, por sua vez, embalou o que a Simplyhealth ofereceu. Três camadas de intermediação para uma consulta médica. Enquanto isso, o cidadão perde progressivamente a noção de que saúde é sua responsabilidade, sua propriedade, seu problema a resolver com seus próprios recursos e escolhas. Essa é a servidão suave que tanto se anuncia sem se perceber.

A ampliação da parceria vai gerar manchete positiva, ações vão subir alguns pontos, executivos vão receber bônus, e nada de fundamental vai mudar. O trabalhador britânico continuará pagando três vezes pela mesma coisa, o NHS continuará entrando em colapso silencioso, e as gestoras continuarão prosperando na sombra da disfunção. É o velho arranjo dos nossos tempos: privatizam-se os lucros, socializam-se as filas, e chamam isso de progresso. Enquanto houver Estado quebrando o que promete consertar, haverá sempre uma Personal Group anunciando parceria estratégica para lucrar com o estrago.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.