A Petrobras divulgou queda de 7% no lucro do primeiro trimestre e, como manda o roteiro, vieram as explicações técnicas, os gráficos coloridos, os comunicados em linguagem corporativa cuidadosamente esterilizada para esconder o óbvio. O óbvio é que estatal de capital misto não é empresa, é cofrinho político fantasiado de empresa, e cofrinho político tem uma característica curiosa: ele rende quando o dono da chave quer que renda, e murcha quando o dono da chave precisa comprar voto, financiar aventura ideológica ou agradar parceiro de coalizão. O resto é fumaça.
Olha, é preciso ter um tipo muito particular de ingenuidade para acreditar que uma empresa cujo preço do produto principal é definido por critério político, cujo conselho é loteado por indicação partidária, cuja política de investimento muda a cada eleição e cujo caixa funciona como pronto-socorro do Tesouro, vá apresentar resultado coerente trimestre após trimestre. O lucro caiu agora, e vai cair de novo, e em algum momento alguém vai descobrir que a fila de fornecedores favorecidos cresceu, que o refino virou subsídio disfarçado para algum setor estratégico do momento, que a política de dividendos foi reescrita no susto para tapar um buraco fiscal que ninguém quer assumir em público.
Quer dizer, segue o dinheiro. Quem ganha quando a Petrobras segura preço de combustível abaixo do mercado internacional? Não é o caminhoneiro, que vê o frete cair junto com o seu próprio salário; não é o consumidor, que paga depois em inflação represada; não é o acionista minoritário, que vê o valor da ação derreter enquanto o controlador faz política social com o patrimônio dos outros. Quem ganha é o governo, que compra paz momentânea, e o conjunto de fornecedores, intermediários e operadores que vivem da gordura do arranjo. A diferença entre o preço justo e o preço político não evapora; ela é redistribuída na surdina, e quem paga é sempre quem não tem como reclamar.
O mais cômico é a indignação seletiva. Quando o lucro sobe, é "lucro abusivo", "exploração do povo brasileiro", "petróleo é nosso e tem que servir ao povo". Quando o lucro cai, há um silêncio constrangido, porque admitir que a queda é fruto direto da política imposta pelo próprio governo seria reconhecer que o gerenciamento estatal destruiu valor. E destruir valor numa empresa que pertence ao contribuinte é, no fim das contas, roubar o contribuinte com luvas de pelica e discurso pomposo. Não tem outro nome para isso. Roubo.
Repare na contabilidade que ninguém mostra: o que se vê é o lucro reportado caindo 7%; o que não se vê é o investimento que deixou de ser feito porque o caixa foi drenado para dividendos extraordinários no ano anterior, é a refinaria que opera abaixo da capacidade por decisão política, é o engenheiro competente que pediu demissão porque cansou de ver projeto técnico sendo atropelado por decisão de gabinete, é o acionista internacional que vendeu a posição e levou capital embora. Esses números não aparecem no balanço, mas estão lá, corroendo silenciosamente aquilo que algum dia foi a joia da indústria brasileira.
E a solução proposta, é claro, vai ser a mesma de sempre: mais Estado, mais conselho, mais comitê, mais regulação, mais "controle social", mais "missão estratégica nacional". Cada nova camada de tutela é vendida como remédio, sendo que é exatamente a doença. Uma sociedade adulta entenderia que ou se privatiza de verdade e se deixa o mercado fazer o trabalho, ou se assume com honestidade que a Petrobras é um instrumento de política pública e se para de fingir que ela tem dever fiduciário com seus acionistas. O meio termo atual, essa quimera de empresa que finge ser empresa, é o pior dos mundos: tem o engessamento do Estado e a opacidade do mercado, sem as virtudes de nenhum dos dois. E enquanto essa farsa continuar, o lucro vai oscilar conforme o humor do palácio, e o brasileiro comum vai continuar pagando a conta sem entender direito por que o tanque do carro custa o que custa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.