O petróleo caiu, e caiu rápido, porque Donald Trump resolveu pausar a operação no Estreito de Ormuz. Repare bem na frase. Não foi descoberta de novo poço, não foi avanço tecnológico em fracking, não foi consumidor consumindo menos nem produtor produzindo mais. Foi um homem, sentado em uma sala fechada, decidindo não atirar. E o mercado mundial de energia, esse organismo supostamente racional movido por fundamentos sólidos, baixou as calças na mesma hora. Quem ainda acredita que existe formação de preço genuína em commodity estratégica precisa rever as próprias premissas com urgência clínica.

O Estreito de Ormuz é a artéria por onde escoa cerca de um quinto de todo o petróleo do planeta. Um corredor de água de menos de quarenta quilômetros de largura no ponto mais estreito, espremido entre o Irã e Omã, decide se o brasileiro vai pagar caro ou baratíssimo no posto da esquina. Isso não é mercado, isso é geopolítica fantasiada de gráfico de candle. E quando o sujeito que controla a maior força militar da história resolve mexer um peão, não há analista de banco com planilha de Excel que segure a onda. O preço se forma na mesa de guerra, não na bolsa de Chicago.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Cada vez que se ameaça fechar Ormuz, sobe o preço, e quem ganha são os produtores americanos de xisto, os russos vendendo escondido para a Índia, os sauditas que renegociam contratos no susto. Cada vez que se anuncia recuo, despenca o preço, e quem ganha são os importadores, os refinadores estocados, os fundos posicionados na ponta vendida que sabiam do recuo antes do recuo. Não existe coincidência nesse cassino, existe insider trading geopolítico em escala industrial, e ninguém vai para a cadeia porque o crupiê é o próprio Estado.

Há ainda o que não se vê, e é onde mora o estrago real. O brasileiro que tanque cheio na sexta-feira não enxerga que está pagando pedágio para uma guerra que não é dele, num estreito que ele jamais visitará, decidida por gente que não o representa. Cada centavo a mais no diesel é frete mais caro, é alface mais cara na feira, é margem corroída do pequeno empresário, é inflação importada que o Banco Central depois usará como pretexto para subir juro e estrangular ainda mais quem produz. A cadeia de destruição parte de uma decisão tomada a treze mil quilômetros de distância e termina na cesta básica da dona de casa em Goiânia. Isso não aparece em manchete nenhuma.

O fascinante é a solenidade com que se cobre tudo isso de razão técnica. Liga-se a televisão e aparece o economista de gravata explicando volatilidade, prêmio de risco, beta do setor. Tudo bonito, tudo errado. O que está em jogo não é técnica, é poder bruto, e o vocabulário sofisticado serve apenas para anestesiar o telespectador de que ele vive sob um regime onde o preço da energia que move sua vida é decidido por humor presidencial e cálculo de superpotência. A linguagem técnica é a roupa nova do imperador, e quem aponta o nu é chamado de simplista.

Resta a lição que ninguém quer aprender. Enquanto o mundo depender de hidrocarbonetos roteados por gargalos militarizados controlados por regimes instáveis, não haverá livre mercado de energia, haverá leilão permanente de medo. A solução não está em mais regulação, mais agência, mais ministério, mais cúpula climática em hotel cinco estrelas. Está em diversificação real de matriz, em produção doméstica desamarrada, em desestatização do setor, em deixar o capital privado fazer o que sabe fazer quando o burocrata sai do caminho. Mas isso dá trabalho, e o atalho de torcer pelo recuo do Trump é mais barato. Até o dia em que ele decidir não recuar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.