A reserva estratégica de petróleo dos Estados Unidos foi criada nos anos setenta para um cenário muito específico, guerra, embargo árabe, colapso de oferta internacional, situação em que o país precisaria de fôlego para não ajoelhar diante de cartel estrangeiro. Quarenta e cinco anos depois, esse cofre nacional acaba de ser aberto, pela primeira vez na sua história, para enviar barris à Califórnia. Não houve guerra, não houve embargo, não houve sabotagem externa. Houve, isso sim, o resultado previsível de décadas em que Sacramento tratou a indústria de refino como vilã a ser punida, empilhou regulação ambiental sobre regulação climática, taxou, restringiu, processou, até que duas refinarias anunciaram fechamento e o estado descobriu, com a cara de quem nunca viu o sol nascer, que combustível não brota do chão por decreto.

Acompanhe a trilha do dinheiro e a piada fica mais sofisticada. O contribuinte do Texas, do Oklahoma, da Pensilvânia, pagou impostos durante meio século para encher um cofre destinado a defender a nação contra catástrofe geopolítica. Esse cofre está agora sendo esvaziado para baixar artificialmente o preço da bomba num estado cujo governo, durante o mesmo meio século, fez questão de hostilizar a produção de combustível no próprio território, exportar a poluição para outras jurisdições e posar de virtuoso enquanto cobrava o imposto de gasolina mais alto da federação. Quem pagou pela festa não foi convidado, e quem nunca contribuiu para a conta recebe o brinde. Chama-se isso, na linguagem da economia clássica, de pilhagem legalizada, e o nome não muda só porque o ladrão usa terno e fala em sustentabilidade.

O que se vê é o motorista californiano com alívio momentâneo na bomba, manchete bonita, governador sorridente em entrevista. O que não se vê é a próxima crise energética real, talvez no Pacífico, talvez no Oriente Médio, em que a reserva estará mais vazia, com barris a menos para o que foi efetivamente projetada. O que não se vê é o sinal enviado a todo governo estadual do país, sabote sua própria oferta à vontade, vote contra refinaria, persiga produtor, que no fim das contas o tio federal cobre o rombo com o estoque de guerra. O que não se vê é o investidor que olha esse circo e decide que construir refinaria em solo americano é negócio para masoquista, garantindo que o problema estrutural piore e a dependência da socorrência federal vire permanente.

A coisa fica ainda mais grotesca quando se lembra que os preços que essa intervenção tenta mascarar são, eles próprios, mensagem do mercado tentando contar uma verdade que o governo da Califórnia se recusa a ouvir. Preço alto é semáforo vermelho dizendo aqui faltou oferta, aqui sobrou regulação, aqui o capital vai embora se o tratamento continuar. Quando o federal injeta barris da reserva para apagar esse semáforo, não está resolvendo problema nenhum, está apenas quebrando o termômetro porque a febre incomoda. A doença continua, agora com a vantagem adicional de ninguém mais saber que ela existe, até a hora em que o paciente desmaia.

Existe uma lógica perversa que se repete em toda intervenção desse tipo, e ela tem nome técnico no manual antigo da liberdade, espiral intervencionista. Primeiro o governo cria o problema via regulação, depois cria a solução via subsídio para o problema que ele mesmo criou, depois cria nova regulação para administrar o subsídio, depois cria novo subsídio para mitigar o efeito da nova regulação, e assim sucessivamente até que a coisa toda vira caricatura de si mesma e ninguém mais consegue desenredar o fio. A Califórnia está no estágio avançado dessa doença, e agora a federação inteira foi contaminada porque a reserva nacional, esse instrumento que deveria existir apenas para guerra de verdade, acaba de ser convertida em mais um item do orçamento eleitoral.

Toda vez que o Estado abre um cofre estratégico para resolver problema que ele próprio causou, está confessando duas coisas ao mesmo tempo, que a política anterior foi um desastre e que a coragem para reverter a política não existe. Saiu mais barato envergonhar quarenta e cinco anos de doutrina de segurança energética do que admitir que a culpa pelo preço do galão em Los Angeles está na Assembleia de Sacramento, não no especulador, não no produtor, não no clima, não no destino. O cofre da nação virou caixinha de campanha, e o pior é que ninguém parece ter notado que o termo correto para isso, nas civilizações que ainda sabiam o que estavam fazendo, era simplesmente pilhagem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.