O barril sobe outra vez, e a desculpa do dia atende pelo nome de Ormuz. Negociações entre Estados Unidos e Irã travadas, embarques limitados, oferta restrita, e pronto, o mercado faz o que sempre faz quando o cano fica estreito, repassa o medo para o preço. A notícia chega embrulhada em jargão diplomático, como se o problema fosse a falta de assinatura num documento, mas o problema é mais antigo que qualquer chancelaria, e se chama geografia. Vinte por cento de todo o petróleo movimentado no mundo passa por uma faixa de água que cabe num zoom de mapa, e quem tem o dedo perto da válvula tem, na prática, um poder que nenhum eleitor jamais delegou a ninguém.

Quer dizer, é fascinante o ritual. Diplomatas se reúnem, posam para foto, soltam comunicado dizendo que houve avanços construtivos, e no dia seguinte o trader em Cingapura, que nunca pisou em Teerã, decide que o risco subiu meio por cento e empurra o Brent. O preço não é decidido na mesa de negociação, é decidido pela soma dispersa de milhões de apostas privadas que tentam adivinhar, com informação fragmentada, o que vai acontecer amanhã. Esse mecanismo, que os planejadores adoram desprezar como especulação irresponsável, é o único sistema da história capaz de processar em tempo real o medo coletivo de uma humanidade inteira a respeito de um pedaço de mar do outro lado do globo.

E aí entra a parte que ninguém quer ver. Cada centavo a mais no barril é um tributo silencioso pago por quem abastece o carro em Sorocaba, em Manaus, em Caruaru. Não foi votado no Congresso, não passou por relator, não teve audiência pública, e mesmo assim entra no bolso do brasileiro com a eficiência de uma retenção na fonte. O frete sobe, o pão sobe, o ônibus sobe, e o sujeito que ganha salário mínimo descobre que pagou a conta de uma queda de braço entre dois governos com os quais nunca trocou uma palavra. Isso tem nome, e o nome não é geopolítica, é confisco terceirizado.

Olha, há também o lado que o noticiário evita. Quem ganha com Ormuz apertada? As petroleiras americanas de xisto, que precisam do barril acima de certo patamar para fechar a conta. Os produtores do Golfo, que vendem menos volume mas a preço de ouro. Os fundos que apostaram comprado na semana passada e agora abrem champanhe. E o próprio governo iraniano, que vive de exportar petróleo por vias criativas e adora um pouco de tensão controlada para justificar regime, sanção e narrativa de cerco. O impasse, convenhamos, tem muito mais beneficiários do que vítimas dispostas a admitir.

O detalhe que escapa aos comentaristas de televisão é que o mundo escolheu, década após década, depender de um sistema energético cuja válvula mestra fica em mãos de regimes teocráticos, monarquias absolutistas e burocracias nervosas. Cada vez que se sabotou a produção doméstica em nome de causas nobres, cada vez que se vetou exploração em nome de princípios elevados, cada vez que se trocou energia confiável por energia da moda, o resultado foi este, ficar refém de um estreito que um drone de quinhentos dólares consegue ameaçar. Não é azar geopolítico, é consequência de escolha deliberada, e quem fez a escolha raramente é quem paga a conta.

No fim, a alta de hoje vai ser explicada amanhã como volatilidade passageira, ruído de curto prazo, ajuste de expectativas. Linguagem para anestesiar o leitor e devolvê-lo dócil ao próximo boletim. Mas a lição é cristalina e precisa ser repetida até cansar, num mundo onde o preço de uma molécula de hidrocarboneto depende do humor de um aiatolá e da paciência de um almirante americano, falar em soberania energética sem produzir a própria energia é fantasia para criança. O resto é encenação, e a conta vem na bomba.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.