A Philip Morris abriu 2026 com resultado acima do consenso, impulsionada pelos produtos sem combustão, o famoso IQOS e a linha Zyn, e pela resiliência do cigarro tradicional em mercados emergentes. Receita em alta, margem saudável, guidance revisado para cima. Traduzindo para quem não lê relatório trimestral: uma empresa que o mundo inteiro finge desprezar publicamente continua entregando caixa enquanto startups queridinhas do noticiário queimam o dinheiro dos outros em escritórios com pufe colorido.

Há uma comédia moral nisso que merece ser desmontada com calma. O mesmo governo que declara guerra ao tabaco, estampa fotos de pulmão necrosado no maço e finge horror em campanhas publicitárias é exatamente o mesmo governo que mais depende da receita do produto. No Brasil, mais de setenta por cento do preço do maço é imposto. Na União Europeia, a conta é parecida. Quer dizer, o Estado não quer que você pare de fumar; o Estado quer que você fume culpado, pagando caro e silencioso. Se o fumante sumisse amanhã, o ministro da Fazenda choraria mais do que o oncologista.

Siga o dinheiro e a hipocrisia aparece nua. A tributação pesada empurra parte do consumidor para o contrabando, que hoje é quase metade do mercado brasileiro, financia facção, corrompe fronteira e ainda assim rende voto de quem promete combater o contrabando com mais imposto, o mesmo imposto que criou o contrabando. É a espiral clássica: o Estado cria o problema com uma intervenção, usa o problema para justificar a próxima intervenção e cobra pedágio em cada curva do labirinto que ele próprio construiu. A Philip Morris, nesse arranjo, virou quase um departamento de arrecadação terceirizado, e ainda leva a culpa moral da operação.

Enquanto isso, a mesma elite ilustrada que exige banir o tabaco legal libera a maconha, subsidia festival de música patrocinado por cerveja, aplaude loteria oficial e distribui antidepressivo como bala de hortelã. O pecado, percebe-se, não está na substância, está em quem a vende. Se é multinacional americana do agrado errado, é veneno. Se é monopólio estatal de apostas online, é progresso. O adulto, esse ser incômodo que insiste em escolher o próprio vício, continua sendo tratado como criança que precisa de tutela, pop-up, selo de advertência e sermão de celebridade. Curioso como quem mais fala em liberdade do corpo é quem mais quer legislar o que entra nele.

No plano puramente econômico, o resultado da companhia escancara uma verdade que desagrada quem vive de planilha de ESG. Capital alocado com disciplina, produto que o consumidor efetivamente deseja, distribuição global e preço defensível diante da inflação geram retorno composto há décadas. Não existe discurso de impacto que substitua fluxo de caixa, e não existe ministério capaz de transformar empresa deficitária em vencedora por decreto. A matemática não tem partido. O mercado, esse sistema descentralizado de bilhões de escolhas individuais, continua premiando quem acerta e punindo quem erra, por mais que editorial de jornal queira inverter o placar na caneta.

Resta a lição que ninguém quer ouvir em voz alta. Uma sociedade adulta reconhece que o fumante sabe o que faz, que o acionista tem direito ao lucro de uma atividade legal, e que o governo que finge combater o que tributa está apenas mentindo com notariado. Enquanto isso não acontece, o balanço da Philip Morris segue sendo o que sempre foi: o retrato trimestral da distância entre o que o establishment diz em público e o que assina no cheque no fim do mês.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.