O Japão revisou o PIB do segundo trimestre para cima, e a leitura oficial vendida pela imprensa financeira é aquela previsível cantilena de que a economia está robusta, que a demanda interna surpreendeu e que agora o Banco do Japão tem folga para seguir apertando os juros. O que ninguém está dizendo em voz alta é o subtexto embaraçoso da história, ou seja, que a autoridade monetária japonesa passou trinta anos praticando a mais longa e teimosa experiência de dinheiro barato da história moderna e agora precisa desmontar esse arranjo sem que o castelo desabe em cima da própria cabeça.
Quem acompanha o Japão sabe que aquela economia não é um caso de sucesso monetário, é um paciente terminal em coma induzido há décadas. Juro zero, juro negativo, compra de títulos públicos, compra de ações via ETF pelo próprio banco central, tudo foi tentado para simular vitalidade num organismo que envelhecia rápido demais. Cada intervenção gerou uma distorção nova, cada distorção exigiu intervenção adicional, e o resultado foi uma bolha de dívida pública que hoje beira duzentos e sessenta por cento do PIB. Compare isso com qualquer país civilizado e você entende por que subir juro no Japão é operação de neurocirurgia com luvas de boxe.
A revisão do PIB para cima serve de álibi conveniente. Sempre serve. O planejador central adora um número redondo que autorize o próximo passo do plano que ele já tinha decidido dar de qualquer jeito. Se o dado viesse fraco, a explicação seria que precisa manter estímulo. Como veio forte, a explicação é que agora pode apertar. A conclusão nunca muda, apenas a justificativa. É o velho truque de quem tem uma pretensão que a realidade cotidiana raramente confirma, mas que ele encaixa na narrativa custe o que custar.
Siga o dinheiro e o quadro fica mais claro. Quem se beneficiou de três décadas de juro de graça foram o próprio governo japonês, que financiou déficits eternos sem pagar a conta, os zumbis corporativos que sobreviveram artificialmente porque o crédito não custava nada, e os operadores globais que montaram o famoso carry trade tomando iene barato para aplicar em ativos de risco lá fora. Quem pagou foram os poupadores japoneses, uma população idosa que viu suas economias renderem menos que zero em termos reais por uma geração inteira. Confisco silencioso, elegante, sem barulho, mas confisco.
Agora que o banco central decide apertar, o carry trade começa a se desmontar, o iene se agita, e cada ponto básico de alta ameaça detonar posições alavancadas mundo afora. Lembre daquele susto de agosto do ano passado, quando o Nikkei desabou dozem por cento num dia depois de um miserável aumento de juros. Aquilo foi um aviso, não um evento isolado. Quando você segura uma mola por trinta anos, ninguém sabe exatamente para onde ela vai saltar quando você tirar o dedo. E é justamente essa a soberba de todo banqueiro central, imaginar que controla um sistema complexo demais para qualquer mente humana abarcar.
A lição que o Japão oferece de graça ao resto do mundo é aquela que ninguém quer aprender. Não existe estímulo monetário sem contrapartida, não existe juro artificialmente baixo sem má alocação de capital, não existe compra de dívida pelo banco central sem eventual acerto de contas. O que se vê é o crescimento revisado para cima e o comunicado técnico de mais uma alta. O que não se vê é a geração de aposentados espoliada, a produtividade estagnada, os zumbis empresariais que consumiram capital que deveria ter ido para negócios viáveis, e a bomba fiscal armada num canto da sala esperando o momento. Cedo ou tarde, alguém paga a conta do almoço que foi vendido como grátis.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.