O PIB nominal da Coreia do Sul cresceu no segundo trimestre no ritmo mais acelerado dos últimos quarenta e sete anos. Quarenta e sete. Para dar dimensão ao número, quando a economia coreana cresceu assim pela última vez, o Brasil ainda era governado por general, o dólar custava quinze cruzeiros e ninguém tinha ouvido falar em Plano Cruzado. Enquanto isso, o país que virou o século XX inteiro debatendo se o Estado deveria ou não substituir o empresário está agora, em 2026, discutindo se aumenta o valor do Auxílio Gás enquanto a produtividade patina no zero vírgula alguma coisa. A comparação não é injusta, é reveladora.

Vale lembrar que a Coreia do Sul, em 1953, tinha renda per capita menor que a de Gana. Comiam casca. O território estava arrasado por uma guerra fratricida, sem recursos naturais relevantes, cercada por vizinhos hostis e dependente de ajuda americana para não morrer de fome. Setenta anos depois, exporta semicondutores para o mundo inteiro, produz os navios que carregam metade do comércio global, fabrica os celulares que estão no bolso do brasileiro que reclama do preço do arroz. Não fizeram isso com bondade estatal, fizeram com abertura comercial agressiva, com câmbio que premiava o exportador, com poupança interna estimulada por juros reais, com um ambiente que respeitava contrato e propriedade. Coisa simples. Coisa que a gente insiste em não fazer.

O que se vê nos jornais é o número do crescimento. O que não se vê é o que ele significa. Um país que cresce assim está gerando emprego real, não posto de estagiário de programa federal. Está formando capital, ou seja, poupança virando fábrica, fábrica virando exportação, exportação virando salário maior no trimestre seguinte. É o oposto do modelo brasileiro, onde o crescimento, quando aparece, vem porque o governo torrou reserva, aumentou dívida, subsidiou consumo via crédito estatal e chamou isso de política industrial. A conta chega depois, sempre chega, e chega em forma de inflação, dólar a seis reais e Selic a quinze por cento para segurar o estrago.

Enquanto a Coreia do Sul comemora crescimento nominal recorde, o operador do banco central brasileiro está discutindo por que a inflação de serviços não cede, por que a expectativa desancorou, por que o mercado não acredita mais na meta. Ninguém acredita porque ninguém deveria acreditar. Um país que gasta mais do que arrecada, que promete o que não pode pagar, que trata o Tesouro como cofrinho de campanha eleitoral, esse país não tem como oferecer moeda estável. Coreia do Sul entende isso porque apanhou em 1997, na crise asiática, e nunca mais esqueceu. O Brasil apanhou em 1994, em 1999, em 2002, em 2015, em 2020, e continua achando que dessa vez vai ser diferente.

Existe algo de quase cômico na diferença de mentalidade. Enquanto o coreano médio poupa mais de trinta por cento da renda, o brasileiro médio está devendo o cartão para pagar o crediário do celular que comprou para financiar a assinatura do streaming. E cada dado desses reflete não a maldade de um povo nem a virtude do outro, reflete os incentivos que o Estado criou. Onde o poupador é premiado com juros reais e moeda que compra alguma coisa daqui a dez anos, você tem Coreia do Sul. Onde o poupador é castigado com imposto sobre rendimento, inflação que devora poder de compra e um governo que a cada quatro anos ameaça mudar as regras do jogo, você tem Brasil.

Não existe milagre asiático. Existe respeito básico por três coisas que a elite intelectual brasileira despreza há décadas: poupança, propriedade e produtividade. Repita o mantra, escreva na parede, cole na testa do próximo ministro da Fazenda. Enquanto continuarmos a achar que se cresce distribuindo o que não se produziu, vamos continuar assistindo o outro lado do mundo passar de casca de árvore a semicondutor em três gerações, enquanto a gente passa de promessa do futuro a piada do presente na mesma janela de tempo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.