A Pinnacle West, holding da Arizona Public Service, divulgou lucro por ação muito acima do consenso no primeiro trimestre de 2026, e os analistas de banco saíram em manada celebrando o "desempenho excepcional" da companhia. Excepcional para quem, é a pergunta que ninguém faz. Porque quando uma empresa opera num regime de monopólio territorial concedido pelo Estado, com tarifa fixada por uma comissão regulatória, com retorno sobre capital investido praticamente carimbado em lei, o lucro extraordinário não é virtude empresarial. É contabilidade política.

O modelo é antigo e funciona como reloginho. A concessionária investe pesado em ativos, a comissão estadual de utilidades aprova um repasse tarifário que garante retorno sobre esse capital, o consumidor do Arizona paga sem ter para onde correr, e o acionista recebe um fluxo de caixa que mais parece renda fixa lastreada em compulsoriedade. Quando o trimestre vem forte, como agora, isso significa que o repasse foi generoso, que o clima ajudou a vender mais kilowatt, que a eficiência operacional cortou custo num lado e o aumento de tarifa engrossou a receita no outro. Não há concorrência no horizonte para forçar a empresa a devolver eficiência ao cliente. O ganho fica todo retido na cadeia de quem está dentro do arranjo.

É bom seguir o dinheiro com calma. O acionista institucional, o fundo de pensão, o gestor passivo, todos esses recebem o resultado e mandam aplausos. A diretoria executa o bônus atrelado a métricas que ela mesma negocia com o conselho. O lobby da empresa em Phoenix mantém a comissão regulatória bem abastecida de "estudos técnicos" que justificam cada centavo da próxima revisão tarifária. Os comissários, por sua vez, costumam ter origem ou destino na própria indústria que regulam, num revezamento de cadeiras que ninguém mais finge não ver. E no fim da fila, sempre no fim, está a família do Arizona que abre a fatura de luz e vê o número subindo enquanto lê na imprensa que a fornecedora teve "trimestre histórico". Ela sente no bolso que algo está errado, mesmo quando não sabe explicar tecnicamente o quê.

O que se vê é o lucro brilhando na manchete da Investing. O que não se vê é o pequeno comerciante de Tucson recalculando margem por causa da conta de energia, é o aposentado de Phoenix decidindo entre o ar-condicionado e o remédio no verão de 45 graus, é o empreendedor que desistiu de instalar uma fábrica no estado porque o custo de operação não fecha. Esse custo invisível não entra no release de resultados, mas existe, e é tão real quanto o dividendo distribuído. A diferença é que o dividendo tem nome, sobrenome e CPF do beneficiário, enquanto o custo está pulverizado em milhões de pequenas decisões frustradas que nunca aparecerão num relatório oficial.

Existe uma confusão deliberada que setores como esse cultivam há um século. Vendem-se ao público como exemplo de "iniciativa privada", quando na verdade são extensões administrativas do poder público com fachada de bolsa de valores. Lucro privatizado, risco socializado, tarifa garantida por canetada, mercado fechado por decreto. Chamar isso de capitalismo é tão honesto quanto chamar o cartório de notas de empresa de tecnologia. O verdadeiro capitalismo, aquele em que empresário ganha dinheiro porque convenceu o cliente a preferir seu produto ao do concorrente, esse há muito foi expulso do setor elétrico americano em nome da "estabilidade do sistema". A estabilidade existe. Para o acionista.

O resultado da Pinnacle West não é notícia de mercado. É boletim de uma engenharia institucional que transforma necessidade básica em renda perpétua para quem está dentro do clube. Cada vez que esse trimestre vem forte, é uma medalha entregue à arquitetura da captura regulatória, não ao gênio empresarial. E enquanto o consumidor americano continuar tratando isso como "livre mercado funcionando", continuará pagando a conta de uma festa para a qual nunca foi convidado. O lucro extraordinário não cai do céu. Ele sobe da fatura de alguém.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.