A Cohu, fabricante americana de equipamentos para teste de semicondutores, fechou o primeiro trimestre de 2026 com receita 29% maior na comparação anual, puxada pela demanda de clientes de computação de alta performance. Não houve milagre, não houve política industrial heroica, não houve ministro cortando fita. Houve uma empresa que leu corretamente para onde a indústria estava indo, fez a aposta de capital certa e entregou a máquina que o comprador precisava na hora em que ele precisava. É isso. Toda a complexidade do mundo dos chips se resume, no fim do dia, a alguém arriscando o próprio dinheiro num palpite sobre o que outro alguém vai querer comprar amanhã.

Repare na assimetria didática. Nos Estados Unidos, o famoso CHIPS Act despejou 52 bilhões de dólares de dinheiro do contribuinte para "garantir a soberania americana em semicondutores", e até hoje o que se viu foi atraso de fábrica, briga sindical, exigência de creche dentro do parque industrial e uma penca de consultorias ESG faturando alto. No Brasil, o eterno choro pela "reindustrialização" continua produzindo seminário, edital da Finep e palestra de economista de banco. Enquanto isso, uma fornecedora de nicho, que ninguém em Washington jamais ouviu falar, cresce sozinha porque resolveu um problema técnico real para clientes que pagam em dólar contante.

Quando você segue o dinheiro de verdade, descobre que a tal "revolução da inteligência artificial" não está sendo financiada por programa governamental, e sim por hyperscalers privados que precisam testar chips em volume industrial. A Cohu vende picareta para garimpeiro nessa corrida do ouro, e o garimpeiro paga porque a picareta funciona. Nenhum comitê interministerial seria capaz de identificar, três anos atrás, que o gargalo da próxima década seria justamente teste de pacote avançado em GPU para data center. Ninguém sabia. O preço de mercado e o lucro do trimestre é que vão dizendo, em tempo real, onde alocar a próxima máquina, o próximo engenheiro, o próximo galpão.

E aqui mora a piada amarga. O mesmo establishment que aplaude o resultado da Cohu nas páginas cor-de-rosa é o que defende, com cara de doutor, que sem subsídio bilionário e tarifa protecionista a indústria de tecnologia "não existe". Ora, ela existe exatamente porque alguém, em algum momento, foi deixado em paz para errar com o próprio capital até acertar. Cada dólar que o Tesouro americano queima em fábrica subsidiada é um dólar a menos no bolso de quem talvez tivesse a próxima ideia de verdade. O que não se vê na manchete do CHIPS Act é a fila de inovações abortadas porque o capital foi sequestrado para bancar o projeto politicamente conveniente.

Há ainda a lição moral, que a turma do PIB finge não enxergar. Crescer 29% num trimestre, num setor cíclico e brutalmente competitivo, exige disciplina de caixa, leitura fria de tendência e coragem de cortar o que não funciona. Nada disso é ensinável em ministério, porque nada disso sobrevive ao incentivo perverso do dinheiro que não é seu. O burocrata que erra promove a si mesmo culpando o mercado; o empresário que erra fecha as portas e perde a casa. Por isso um sistema produz Cohu e o outro produz Eletrobras eternamente reestatizada.

O recado do balanço é simples e devia estar pregado na parede de toda secretaria de desenvolvimento econômico desse país. Riqueza não se decreta, não se planeja em PowerPoint e não nasce de edital. Riqueza é o que sobra quando o governo desiste de atrapalhar e alguém é finalmente livre para servir o cliente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.