A cena é familiar e ninguém estranha mais. Uma fabricante de robôs farmacêuticos para hospitais divulga resultado acima do consenso, um banco de investimento sobe o preço-alvo de oitenta e três para noventa dólares, a ação dispara no pré-mercado, e a manchete vende a história como triunfo da inovação tecnológica. É bonito, é limpo, é vendável. Só esquece de mencionar o detalhe inconveniente: o dinheiro que paga essas máquinas, na ponta final, não sai do bolso de ninguém que esteja olhando o preço.
A Omnicell vende automação de dispensação de medicamentos para redes hospitalares. Redes hospitalares americanas operam num ecossistema onde mais de sessenta por cento da receita vem direta ou indiretamente de Medicare, Medicaid e seguros obrigatórios construídos a marteladas regulatórias desde os anos sessenta. Quer dizer, quando o hospital decide gastar milhões num gabinete robótico que conta comprimido, ele não está fazendo o cálculo de um padeiro escolhendo entre comprar um forno novo ou contratar mais um ajudante. Ele está fazendo o cálculo de quem sabe que o reembolso vem, que a margem está protegida por código fiscal, e que o sistema inteiro foi desenhado para que o custo seja repassado adiante até evaporar nas estatísticas do Tesouro.
Olha o que se vê: receita de trezentos e dezessete milhões, ações subindo, analista satisfeito. Olha o que ninguém aponta: cada dólar dessa receita atravessou um labirinto de subsídios, isenções, mandatos e reembolsos federais antes de chegar lá. O preço daquele robô não é o preço que o mercado livre estabeleceria entre comprador e vendedor sopesando alternativas. É o preço que emerge de uma negociação onde o pagador final, o contribuinte, não está na mesa, não vota no contrato, e nem sabe que existe uma reunião acontecendo. Quando o consumidor real some da equação, o sistema de preços vira teatro.
E o teatro tem patrocinadores. Companhias como essa gastam milhões por ano em lobby em Washington, mantêm escritórios dedicados a navegar a regulação da FDA, e empregam exércitos de consultores que sabem exatamente qual emenda introduzir em qual projeto para garantir que a próxima rodada de mandatos hospitalares de "segurança farmacêutica" exija precisamente o tipo de equipamento que elas fabricam. Não é capitalismo. É captura. A diferença entre um empresário que serve o cliente e um empresário que captura o regulador é a mesma diferença entre o carpinteiro que vende cadeira na feira e o cortesão que vende decreto na corte.
O analista de Piper Sandler não está mentindo quando projeta noventa dólares por ação. Ele está fazendo a aritmética correta dentro de um sistema rigged. Enquanto o governo americano continuar bombeando trilhões via Medicare, enquanto o complexo hospitalar continuar protegido de competição real por barreiras regulatórias que ele mesmo ajudou a redigir, enquanto o paciente continuar sendo um espectador num jogo onde nem segura a carteira nem escolhe o produto, esses números vão continuar batendo. Lucro garantido por intervenção é o sonho úmido de qualquer executivo que abandonou a vergonha.
O problema é o seguinte, e ele não vai sumir porque o jornal financeiro não comenta: toda riqueza fabricada em estufa estatal é riqueza emprestada do futuro. Os trilhões que sustentam Medicare hoje foram impressos, tomados ou prometidos. Quando a conta chegar, e ela sempre chega, o robô farmacêutico vai continuar funcionando, mas a moeda que pagou por ele vai valer uma fração do que valia. Aplaudir lucro empresarial financiado por gastança pública é aplaudir o convidado que está bebendo champanhe enquanto a casa pega fogo. A festa termina sempre do mesmo jeito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.