O comunicado é dos que economizam palavras para não economizar vergonha. PlusAI e Churchill Capital Corp IX, o enésimo veículo SPAC do financista Michael Klein, anunciaram o encerramento mútuo do acordo de combinação de negócios que prometia levar a desenvolvedora de software de direção autônoma para caminhões ao pregão da Nasdaq sem passar pelo escrutínio enfadonho de um IPO tradicional. Tradução do economês corporativo para o português de gente honesta: a conta não fechou, o mercado não engoliu, e os executivos resolveram cair fora antes que a fatura chegasse.

Olha, é preciso entender o que é um SPAC para sentir o cheiro do esquema. Uma companhia de aquisição de propósito específico é, em essência, um cheque em branco. Investidores depositam dinheiro num casco vazio, o patrocinador sai à caça de uma empresa privada para fundir, e mágica: uma startup sem receita, sem lucro e frequentemente sem produto aparece listada em bolsa valendo bilhões. Entre 2020 e 2021, na festa do dinheiro de graça fabricado pelos bancos centrais do mundo, esse truque encheu Wall Street de unicórnios imaginários. Quando os juros subiram e o crédito artificial evaporou, a maré baixou e todo mundo viu quem estava nadando pelado.

Siga o dinheiro, que a trilha conta a história inteira. Michael Klein, o homem por trás da Churchill, transformou a criação de SPACs numa linha de montagem pessoal, cobrando taxas generosas dos investidores comuns para fazer o papel de cupido financeiro. A PlusAI, por sua vez, já havia tentado esse casamento uma vez em 2021, com outro SPAC, num acordo avaliado em 3,3 bilhões de dólares que também desandou. Agora, na segunda tentativa, o desfecho é idêntico. Os fundadores levam o prêmio de consolação, os banqueiros embolsam honorários, e o investidor de varejo que comprou a promessa de caminhões autônomos revolucionando a logística fica segurando papel que vale cada vez menos.

O fenômeno merece uma analogia antiga. No final do século XVIII, a Inglaterra viveu a chamada bolha dos mares do sul, quando ações de uma empresa sem negócios reais foram vendidas ao público sob promessas mirabolantes de comércio com a América espanhola. Havia até um panfleto vendendo cotas de uma empresa cujo objeto seria revelado depois. Trezentos anos depois, o truque é o mesmo, só mudou o verniz tecnológico. Caminhão autônomo virou o El Dorado dos pampers financeiros, e quem questiona é chamado de atrasado, tecnofóbico, inimigo do progresso. Até o dinheiro acabar.

O ponto que ninguém quer ver é que esse tipo de especulação sobre promessa futura só prospera em ambientes de juros artificialmente baixos e liquidez fabricada. Quando o custo do dinheiro é zero, qualquer fantasia vira investimento respeitável; quando o custo volta a existir, a realidade reaparece com a elegância de um caminhão sem freios. A PlusAI pode até ter tecnologia competente, engenheiros brilhantes e ambição legítima, mas isso é uma discussão separada da engenharia financeira que tentou empurrá-la ao mercado público a preços que nenhum analista sóbrio justificaria.

Fica a lição que a história repete com paciência de monge e que investidor nenhum parece disposto a aprender. Quando o caminho até a bolsa pula o pedágio do escrutínio, quando a avaliação é construída em planilhas que projetam dez anos adiante o que a empresa não conseguiu fazer em dez semanas, quando os mesmos banqueiros aparecem em todos os negócios cobrando taxas em todos os pontos da cadeia, o que se vende ali não é futuro, é perfume sobre podridão. Dois acordos desfeitos em cinco anos não são azar, são diagnóstico.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.