Saiu o dado e a reação foi a de sempre, aquela euforia ensaiada de quem precisa vender manchete antes do café esfriar. O PMI industrial do Japão em abril superou as previsões, os serviços desaceleraram, e a imprensa econômica resolveu tratar o primeiro número como se fosse vitória civilizatória e o segundo como nota de rodapé. Quer dizer, a parte da economia que produz coisas tangíveis respirou um pouco, e a parte da economia que depende do consumidor real, aquele sujeito que vai à padaria e paga a conta de luz, está perdendo o ar. Qual das duas histórias importa mais para quem vive de salário? Exatamente a que o índice Nikkei menos comemorou.

Olha, é preciso lembrar que o Japão é o laboratório mais antigo do planeta em matéria de estímulo monetário permanente. Três décadas imprimindo, comprando títulos do próprio Tesouro, enfiando a taxa básica em território negativo, socializando o risco de tudo quanto é grande banco, e o resultado é uma economia que só consegue parecer viva quando o iene desaba contra o dólar. É o que está por trás desse PMI industrial melhor que o esperado. Não é produtividade, não é inovação, não é o milagre das fábricas robotizadas que rendem documentário na TV a cabo. É câmbio. É a moeda desvalorizada dando sobrevida artificial ao exportador, enquanto o japonês comum paga mais caro pelo arroz importado, pela gasolina e pelo sashimi que antes era trivial.

Siga o dinheiro e a peça encaixa sozinha. Quem ganha com iene fraco são os conglomerados exportadores, os mesmos que alimentam o partido governista há gerações, os mesmos cujos presidentes dormem em Davos e acordam em audiências parlamentares. Quem perde é o aposentado, o pequeno comerciante, o trabalhador de serviços, e por isso mesmo o PMI de serviços está desacelerando enquanto o industrial finge saúde. Não é coincidência, é aritmética de transferência de renda. Tira da base, coloca no topo, embrulha no papel celofane chamado política monetária, e vende como competência técnica para as câmeras.

Tem também aquilo que não se vê, e que ninguém quer discutir. Se o Banco do Japão não estivesse segurando a curva de juros com as duas mãos e os dois pés, se a dívida pública japonesa não estivesse beirando dois vírgula seis vezes o PIB, se o governo fosse obrigado a rolar esse monumento funerário aos preços de mercado, o país teria declarado moratória técnica há muito tempo. A indústria, que supostamente está indo bem, só existe naquele formato porque a poupança de três gerações foi expropriada via juro real negativo para financiar a fantasia fiscal de Tóquio. A pergunta que não cabe no release da Investing é simples. Quanto tempo mais?

E aí entra a parte cultural, porque economia nunca é só economia. O Japão envelhece, perde população, fecha escolas, abandona vilas inteiras, e a resposta da elite política segue sendo a mesma de 1995, mais estímulo, mais compra de ativos, mais engenharia financeira. Ninguém na Dieta tem coragem de dizer que o remédio virou doença, que três décadas tentando a mesma coisa deveriam ensinar alguma coisa, que cercas velhas costumam ter razão para existir. Preferem maquiar número de PMI e esperar o próximo trimestre. É o despotismo suave em versão asiática, aquele que não prende ninguém mas infantiliza todo mundo, que promete proteção e entrega dependência vitalícia do balanço do banco central.

Fique com o retrato, então. Indústria que parece forte porque a moeda apanhou, serviços que enfraquecem porque o consumidor apanhou mais ainda, e uma imprensa que chama isso de surpresa positiva. Quando o teatro acabar, e ele vai acabar, vão dizer que ninguém poderia ter previsto. Previram. Só não quiseram ouvir.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.