Reescreveram a fusão e, no mesmo fôlego, reescreveram o contrato do CEO. Reparem na elegância da jogada: a empresa anuncia uma "modificação de termos" como quem ajusta a gravata antes de subir ao púlpito, e enfia, no mesmo pacote, uma releitura conveniente da remuneração de quem comanda a operação. Quer dizer, o sujeito que negocia em nome dos acionistas é exatamente o sujeito cujo bolso depende do resultado da negociação. Se isso fosse mesa de pôquer, alguém já teria pedido para abrir as cartas.

Olha, fusão de empresas de saúde nunca é só fusão de empresas de saúde. É consolidação de mercado, é redução de concorrência, é poder de barganha contra plano, contra hospital, contra paciente que no fim da cadeia recebe a fatura sem entender por que subiu. E cada vez que dois gigantes viram um colosso, o discurso é sempre o mesmo: sinergia, eficiência, escala. Palavras bonitas que servem para esconder o que de fato acontece, que é a concentração de poder econômico nas mãos de um número cada vez menor de gente, com um número cada vez maior de advogados.

E o contrato do CEO mudando junto? Me diz uma coisa, em que universo paralelo o executivo aceita rever os termos da própria fusão sem garantir antes que a fatia dele saia maior do outro lado? A história empresarial está cheia desses arranjos em que o "alinhamento de interesses" sempre, sempre alinha primeiro o interesse de quem assina os documentos, e só depois, se sobrar, o interesse de quem comprou a ação acreditando no prospecto. Bônus de retenção, golden parachute, aceleração de stock options, cláusula de change of control: o vocabulário é técnico justamente para o leigo desistir de entender.

Siga o dinheiro e a coisa fica menos misteriosa. Quem ganha com a fusão remendada? Os bancos de investimento que cobram pelo serviço duas vezes, uma na proposta original e outra na renegociação. Os escritórios de advocacia que faturam por hora de trabalho. O conselho de administração que aprova o pacote do CEO porque, ora, o CEO foi quem indicou metade dos conselheiros. E o executivo, claro, que sai com um contrato mais doce e um portfólio maior para administrar. O acionista minoritário aparece nessa lista? Aparece, sim, no rodapé, em letra miúda, como aquele convidado que pagou o jantar e ficou em pé.

Tem uma coisa que ninguém vê nesse tipo de operação e que importa mais do que tudo o que se anuncia em comunicado oficial. O que não está sendo construído porque o capital foi parar nessa consolidação? Quantas clínicas menores, mais ágeis, mais baratas, deixaram de nascer porque o mercado virou um tabuleiro de xadrez com duas peças gigantes? Quantos médicos perderam autonomia, quantos serviços perderam variedade, quantos pacientes perderam alternativa? O custo dessas megafusões nunca aparece no balanço de quem as celebra, mas aparece, com juros e correção, no boleto de todo mundo que precisa de atendimento.

O capitalismo verdadeiro não tem nada a ver com isso. O capitalismo verdadeiro é o sujeito que arrisca o próprio dinheiro, fracassa quando erra, prospera quando acerta, e responde ao consumidor porque depende dele. Esse arranjo de fusão renegociada com bônus para o chefe é outra coisa, é uma engrenagem que usa a linguagem do mercado livre para operar como cartório, distribuindo benefícios entre iniciados e empurrando o custo para fora. Toda vez que um comunicado de "modificação de termos" cai na imprensa, vale repetir a pergunta que ninguém faz na coletiva: e o acionista, foi consultado ou só notificado?

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.