Pompeo apareceu no Nomura Investment Forum para dizer ao mercado o que o mercado já estava ansioso para ouvir, que o Irã segue sendo problema, que a China segue sendo problema, e que a política externa americana enfrenta desafios imensos. Tradução do diplomatês para o português de boteco, comprem dólar, comprem ações de defesa, e rezem para que Washington continue achando que o mundo inteiro é quintal seu. O homem que ajudou a desenhar o tabuleiro agora cobra ingresso para explicar as peças, e a plateia de gestores de fundo aplaude porque cada novo "flashpoint" é margem nova na carteira.
Olha, existe um padrão antiquíssimo nessa coreografia, e ele atravessa séculos com a regularidade de um relógio suíço. Sempre que um império entra em desconforto fiscal sério, descobre subitamente que o mundo está mais perigoso do que nunca, que inimigos brotam em cada esquina, que é preciso "projetar força". Roma fazia isso, a Espanha imperial fazia isso, a Inglaterra vitoriana fazia isso, e os Estados Unidos, com uma dívida pública que já ultrapassou trinta e cinco trilhões de dólares, fazem isso agora com sotaque texano. O medo é a única mercadoria cuja demanda nunca cai quando o governo precisa justificar gasto.
Quer dizer, ninguém perguntou ao distinto ex-secretário quanto custou ao contribuinte americano cada aventura externa das últimas duas décadas, e quanto desse dinheiro acabou em contratos da Raytheon, Lockheed, Boeing e da turma toda que financia think tanks que produzem analistas que aparecem na Bloomberg dizendo que precisamos de mais gastos com defesa. O circuito é fechado, lubrificado, e funciona perfeitamente desde Eisenhower avisar, em 1961, que o complexo industrial-militar ia engolir a república. Engoliu, digeriu, e agora arrota relatórios de risco geopolítico em conferências de Cingapura.
Me diz uma coisa, por que a análise de risco geopolítico nunca, nunca mesmo, inclui o risco de o próprio império ser o desestabilizador? O Irã é um problema, certamente, mas alguém lembrou que quem rasgou o acordo nuclear em 2018 atende pelo nome de Pompeo? A relação com a China é tensa, óbvio, mas a tarifa, a sanção, o cerco tecnológico, a base militar, tudo isso é vento solar atingindo Washington ou é política deliberada de uma elite que precisa de inimigo permanente para justificar orçamento? A pergunta nunca é feita porque a resposta destruiria o negócio.
O que se vê é o ex-secretário avisando sobre perigos. O que não se vê é a fatura, e ela é colossal. Cada dólar gasto em "projeção de poder" é um dólar não gasto em infraestrutura interna americana, é um dólar tirado do bolso de quem trabalha, é um dólar que vira inflação porque o Federal Reserve monetiza dívida para sustentar a farra. O contribuinte americano paga a conta da guerra, o consumidor mundial paga a conta da inflação do dólar, e o investidor que ouve Pompeo em Cingapura paga a conta da ansiedade fabricada com hedge cambial. Três camadas de pilhagem em um único discurso de meia hora.
No fundo, o teatro é sempre o mesmo, e os figurinos mudam pouco. Quando um homem que passou anos no poder vem dizer ao mercado que o mundo está perigoso, o leitor atento deve perguntar duas coisas. Primeiro, quem o paga hoje, literalmente, qual fundo, qual lobby, qual conselho. Segundo, o que ele está vendendo embutido no diagnóstico. Porque ninguém sobe ao palco de uma conferência de investimentos em Cingapura por amor à pátria. Sobe por cachê, por relevância, e para manter aceso o motor que transforma medo em margem. O resto é fumaça.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.