A Pop Mart, empresa que transformou a ansiedade consumista em modelo de negócios, liderou no primeiro trimestre de 2026 a entrada de capital pelo canal Southbound do Stock Connect, o mecanismo que permite a investidores da China continental comprar ações listadas em Hong Kong. O Morgan Stanley tratou o dado como sinal de força. E talvez seja. Mas força de quem, exatamente, e sob quais condições, são perguntas que nenhum relatório de banco de investimento tem interesse em responder.
O Southbound não é um mercado livre. É um corredor alfandegado de capitais, com cotas, regras e supervisão do Banco Popular da China, a mesma instituição que decide quando o dinheiro flui, em que direção e com qual intensidade. Quando dizemos que "investidores chineses estão otimistas com a Pop Mart", estamos dizendo, com mais precisão, que o capital continental encontrou permissão, espaço e incentivo para fluir naquela direção específica. O entusiasmo é real, mas o ambiente em que ele opera é administrado. Ignorar isso é confundir a corrente com o rio.
Quanto ao objeto do entusiasmo: a Pop Mart encerrou 2025 com receita de 37,1 bilhões de yuans, crescimento de 185%, e lucro líquido de 12,78 bilhões, alta de 308%. Números que fariam corar qualquer grande varejista ocidental. O problema é que 38% de toda essa receita veio de uma única linha de personagens, o The Monsters, cujo rosto mais famoso é o Labubu, uma criatura que parece ter sido desenhada por alguém que não conseguia decidir entre elfo e monstro. A mesma empresa que Morgan Stanley projeta faturar 47,88 bilhões de yuans em 2026 depende, portanto, de um bonequinho de 30 dólares para sustentar o argumento. Quando os resultados saíram, em março, as ações despencaram 23% em um único pregão, a maior queda diária da história da companhia em Hong Kong. O mercado, naquele momento, foi mais honesto que os analistas.
Há algo de genuíno aqui, e seria desonesto negá-lo. O Labubu não foi empurrado pela propaganda estatal nem pelo crédito subsidiado. Ele surgiu de uma demanda real, espalhada pelo mundo através de redes sociais, pelo desejo de adultos que preferem colecionar objetos de resina a investir em previdência privada. Isso é sinal de mercado funcionando, e funciona independentemente de onde a fábrica fica. O modelo de "caixinha cega", em que o comprador não sabe qual personagem vai receber, é um mecanismo que explora a utilidade marginal da surpresa com precisão quase cirúrgica: quanto mais você abre, menos valor cada unidade adicional entrega, mas a antecipação mantém você pagando. É capitalismo em sua forma mais destilada, o que torna especialmente irônico que os maiores compradores da ação sejam cidadãos de um Estado que ainda mantém no nome o adjetivo "comunista".
A Pop Mart acaba de abrir subsidiária no Brasil e já move ação judicial contra fabricantes de falsificados aqui. Propriedade intelectual como direito defensável, empresa estrangeira usando o sistema jurídico brasileiro para proteger seus ativos: isso é o mercado funcionando em favor de quem cria, e merece reconhecimento. Mas convém lembrar que a mesma empresa que agora invoca o direito de propriedade no Brasil existe dentro de um sistema, na China, em que esse direito é concedido pelo Estado e pode ser retirado pela manhã antes do café. A Alibaba aprendeu isso. A Didi também. A Pop Mart ainda não precisou aprender, o que não significa que a lição foi cancelada.
O que o relatório do Morgan Stanley chama de "liderança em entradas de capital Southbound" é, em última análise, uma notícia sobre onde o capital chinês está sendo autorizado a ir. É também uma notícia sobre o apetite ocidental por métricas que parecem neutras mas carregam pressupostos enormes. Um fluxo de capital administrado por um banco central de partido único não é evidência de confiança no livre mercado. É evidência de que, às vezes, o Partido também gosta de brinquedo. Isso não é bullish, é simplesmente desconcertante.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.