O censo japonês de 2025 fechou em 123.049.524 habitantes, e o dado, lido com honestidade, não é estatístico, é civilizacional. O Japão está sumindo. Não por guerra, não por peste, não por catástrofe natural. Está sumindo porque parou de fazer filhos faz tempo, e nenhuma das centenas de programas governamentais bilionários lançados desde os anos 1990 conseguiu reverter um centímetro dessa curva. Quer dizer, gastaram fortunas para descobrir que ministério não engravida ninguém.

Olha, todo país desenvolvido que abraçou o modelo do Estado-providência caiu na mesma armadilha, e o Japão é só o aluno mais aplicado da turma. Quando o governo promete cuidar da sua aposentadoria, da sua saúde, da sua creche, do seu desemprego, da sua velhice e do seu enterro, a primeira coisa que ele destrói, sem perceber, é o motivo pelo qual as pessoas tinham filhos. Filho deixou de ser projeto de continuidade familiar e virou despesa opcional num cardápio de consumo. O cálculo individual passou a ser racional, e o resultado coletivo, suicida. Cada japonês, sozinho, faz a conta certa; o país inteiro, somado, desaparece.

E me diz uma coisa, quem está pagando essa conta? A demografia japonesa hoje é uma pirâmide invertida que faria qualquer atuário sério acordar suando. Cada trabalhador na ativa carrega cada vez mais aposentado nas costas, e como ninguém no parlamento tem coragem de dizer que o sistema previdenciário público sempre foi um esquema Ponzi sustentado por crescimento populacional eterno, a saída foi a de sempre: imprimir iene, inflar dívida, manter juro perto de zero por três décadas e rezar para que o castelo não desabe antes da próxima eleição. O Japão tem dívida pública de mais de duzentos e cinquenta por cento do PIB e ninguém comenta, porque comentar seria admitir que o rei está nu há quarenta anos.

O mais interessante é o que não se vê nessa estatística. Não se vê o apartamento que não foi construído porque não vai ter quem morar nele. Não se vê a empresa familiar que fechou porque o filho não nasceu para herdar. Não se vê a aldeia que virou cemitério a céu aberto no interior de Honshu, com casas vazias custando literalmente um dólar e ainda assim sem comprador. Não se vê a inovação que não aconteceu porque o jovem que teria a ideia simplesmente nunca existiu. Toda política pública gera duas economias paralelas, a que aparece nos panfletos do ministério e a que some das ruas sem alarde. A primeira ganha prêmio, a segunda enterra o país.

E antes que alguém repita a ladainha de que basta abrir as fronteiras para imigração e está tudo resolvido, vale lembrar que cultura não é peça de reposição de motor. Sociedade coesa, alto nível de confiança interpessoal, baixíssima criminalidade, instituições funcionais, tudo isso o Japão construiu em séculos e não se troca num decreto migratório. Os europeus tentaram o atalho e estão hoje colhendo guetos, bairros sem lei e crise identitária permanente. O conservador entende que algumas coisas, uma vez quebradas, não voltam ao lugar com canetada.

Fica o aviso para quem ainda tem ouvidos no Brasil, que vive iludido com a ideia de que somos um país jovem e eterno. Nossa taxa de fecundidade já está abaixo da reposição, nosso INSS é matematicamente insolvente, e nosso modelo político continua prometendo Estado-babá maior, mais caro e mais ambicioso a cada eleição. O Japão é o futuro que o Brasil está construindo com trinta anos de atraso, só que sem a poupança japonesa, sem a disciplina japonesa, sem a indústria japonesa e sem o iene como moeda forte. Estamos pegando o pior dos dois mundos e chamando isso de política social. Quando a conta chegar, e ela sempre chega, ninguém vai poder dizer que o aviso não estava escrito em japonês, em letras garrafais, no censo de 2025.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.