A Open Lending, aquela queridinha do fintech automotivo que prometia usar inteligência artificial para enxergar valor onde os bancos tradicionais viam risco, está apanhando feio no pregão de hoje. Os papéis afundaram depois que a empresa revelou ajustes em estimativas de valor justo de contratos passados, reconheceu que a qualidade dos empréstimos originados em safras anteriores é pior do que o modelo prometia, e admitiu, com aquele eufemismo corporativo que ninguém engole, que a inadimplência veio acima do esperado. Em português claro: emprestaram para quem não tinha como pagar, embrulharam o risco numa caixa bonita com etiqueta de algoritmo, e agora a caixa está vazando.
Olha, o roteiro é tão antigo que já deveria estar tatuado na testa de todo gestor de fundo. Pega uma empresa que opera no nicho near-prime, ou seja, o devedor que o banco grande não quer porque já farejou o problema, veste o negócio com linguagem de Vale do Silício, fala em machine learning, scoring proprietário, modelo preditivo, e pronto, o investidor desavisado acha que descobriu o santo graal do crédito. O que estava acontecendo de verdade era o mesmo de sempre, expansão de carteira em ambiente de juros artificialmente baixo, com modelo treinado em período de bonança que jamais viu uma recessão de verdade, jamais viu inflação corroer salário real, jamais viu o devedor escolher entre pagar a parcela do carro ou o aluguel.
Quer dizer, quando os juros sobem e a festa do dinheiro barato acaba, o modelo estatístico não fica mais inteligente, fica mais nu. Os contratos originados nos anos do dinheiro de graça revelam o que sempre foram, aposta de banco de cassino disfarçada de inovação financeira. E aí vem a parte que ninguém quer olhar de frente, esse tipo de empresa não existe num vácuo, ela floresce porque o banco central produziu juros que tornavam qualquer empreitada absurda parecer racional, e porque o regulador deixa o jogo correr enquanto a música está tocando, depois aparece de terno preto no velório fingindo que não viu nada.
Me diz uma coisa, quem ganhou enquanto a ação valia trinta dólares e a tese era vendida em conferência de investidor? Os fundadores que monetizaram opções, os bancos de investimento que estruturaram a oferta e cobraram fee polpudo, os gestores que apareceram em capa de revista falando do futuro do crédito. Quem perde agora? O acionista pequeno que comprou a tese atrasado, o aposentado cujo fundo de pensão tinha a posição numa cesta de small caps de tecnologia financeira, e, no fim da linha, o motorista que financiou o carro com taxa que ele não conseguia bancar e agora vai ter o veículo apreendido. O capitalismo de verdade pune erro, mas esse capitalismo de incentivo perverso socializa o prejuízo e privatiza o lucro, e segue assim safra após safra.
O ponto que ninguém quer admitir é que crédito não é problema de algoritmo, é problema de informação, de tempo, de juízo humano sobre coisas que o modelo não consegue medir. Caráter do tomador, estabilidade do emprego dele, o ciclo macroeconômico em que estamos, a probabilidade de o real, o dólar, ou o emprego dele continuarem existindo da forma que o spreadsheet supõe. Quando você terceiriza esse juízo para uma caixa preta calibrada em dados de cinco anos de boom, você não eliminou o risco, você apenas o empurrou para o futuro com taxa de juros embutida. E o futuro, como sempre, chega.
A queda de hoje não é uma anomalia, é o sistema funcionando exatamente como deveria, ainda que tardiamente. Cada ciclo desses queima uma geração de incautos e produz a próxima geração de prudentes, até que esses prudentes envelhecem, morrem, e o jovem que nunca viu o crash repete a fé no novo algoritmo que vai, dessa vez sim, transformar chumbo em ouro. Não vai. Nunca vai. E quem promete que vai está vendendo alguma coisa, geralmente as próprias ações antes da queda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.