A Robinhood subiu de novo e os analistas de terno engomado correram para inventar uma narrativa decente. Falaram em volume de cripto, em receita de juros sobre saldos parados, em expansão para a Europa, em ativos sob custódia batendo recordes. Tudo verdade, tudo parcial. O fato concreto é mais simples e mais incômodo para quem ainda acredita que mercado financeiro é assunto de iniciados, o varejo americano voltou a operar com sangue nos olhos, e a corretora que ofereceu corretagem zero quando os incumbentes cobravam pedágio está colhendo o que plantou em 2021.
Olha, quando o GameStop explodiu e meia dúzia de hedge funds quebrou a cara contra um exército de adolescentes no Reddit, o establishment teve um ataque de pânico moral. Disseram que era irresponsável, que o povo não sabia o que fazia, que era preciso proteger o pequeno investidor de si mesmo. Curiosamente, ninguém nunca quis proteger o pequeno investidor das taxas absurdas que ele pagava décadas a fio, nem do fundo de pensão que torrava sua aposentadoria em obrigações do Tesouro a juro negativo. A proteção só apareceu quando o caboclo descobriu que podia ganhar dinheiro sozinho. É sempre assim, a tutela é invocada exatamente no momento em que a autonomia começa a funcionar.
Me diz uma coisa, por que uma corretora que existe há pouco mais de uma década vale hoje mais do que casas centenárias de Wall Street? Porque ela entendeu o óbvio que ninguém queria enxergar, o sujeito comum quer acesso, não condescendência. Quer botão de comprar e botão de vender, quer cripto, quer opção, quer o ETF da moda, quer apostar no time que ele acompanha. Os reguladores chamam isso de gamificação como se fosse pecado, mas o cassino verdadeiro sempre esteve no andar de cima, vestido de gestor de fundo, cobrando dois por cento de taxa de administração para perder do índice. A diferença é que agora a aposta é transparente e a comissão é zero.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. A Robinhood ganha com o spread, com juros sobre caixa em conta, com o tal payment for order flow que o congresso americano ameaça proibir a cada seis meses sem nunca proibir, e ganha sobretudo com o fato de que o Fed inundou o sistema de liquidez por quinze anos seguidos e agora colhe a geração mais especulativa da história, criada com o smartphone na mão e o juro real negativo no extrato. Quem fabricou essa geração não foi a corretora, foi o banco central. A Robinhood só montou a vitrine.
Tem ainda o capítulo cripto, que merece uma nota à parte. Enquanto os bancos tradicionais passaram cinco anos explicando ao cliente que Bitcoin era golpe, a corretora dos memes integrou ativos digitais, lançou stablecoin própria, comprou exchange europeia e se posicionou como ponte entre o mundo velho e o mundo novo. Resultado, quando o ciclo virou e o capital migrou de volta para risco, ela estava no caminho. Não foi sorte, foi leitura. O establishment confundiu desprezo com estratégia, e desprezo nunca foi estratégia em lugar nenhum.
O que essa alta de hoje conta, no fundo, não é uma história de balanço trimestral. É uma história sobre quem decide o que é investimento legítimo. Durante décadas a resposta foi dada pelos guardiões de sempre, agora a resposta é dada por milhões de pessoas com um aplicativo e uma opinião própria. Pode dar errado, pode dar muito errado, e vai dar errado para muita gente individualmente, do jeito que sempre deu nos pregões de qualquer época. Mas o direito de errar com o próprio dinheiro é a única definição honesta de liberdade econômica que existe. Quem quer proteger o cidadão dessa liberdade não está protegendo ninguém, está apenas defendendo o monopólio que perdeu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.