A Antin Infrastructure Partners derrete na bolsa de Paris e a imprensa financeira faz de conta que é um episódio isolado, um daqueles humores incompreensíveis do mercado que amanhã voltam ao normal. Não é. O que está caindo não é uma ação, é um modelo inteiro de negócio que foi engendrado na estufa do dinheiro barato e da fé cega de que os bancos centrais manteriam a taxa perto de zero até o fim dos tempos. Quando essa premissa ruiu, ruiu junto a matemática de todos os fundos que compraram aeroportos, fibra óptica, parques eólicos e gasodutos pagando múltiplos que só faziam sentido em um universo paralelo onde o custo do capital era permanentemente zero.
Vale olhar o arranjo com calma. A tese vendida por essas gestoras foi sempre a mesma cantilena: infraestrutura é ativo defensivo, gera fluxo de caixa previsível, indexado à inflação, protegido por concessão, imune ao ciclo. Tradução honesta: compramos ativos regulados cujo retorno depende inteiramente de o governo continuar garantindo tarifa, continuar bancando o subsídio verde, continuar comprando energia renovável a preço acima do mercado. Quando a bolsa do contribuinte europeu esgota e o Banco Central Europeu descobre que inflação não é fenômeno decorativo, o castelo de cartas mostra que sempre foi castelo de cartas.
Siga o dinheiro e a fotografia fica mais clara. Quem colocou capital nesses fundos foram os grandes fundos de pensão europeus, obrigados por regulação a buscar retorno em ativos "seguros" e "sustentáveis", empurrados pelos rótulos ESG que se transformaram na indulgência moderna. Quem levou taxa de administração gorda foram os gestores da Antin e assemelhados. Quem financiou o subsídio que sustentava a rentabilidade dos ativos foi o contribuinte, via imposto e via conta de luz. E quem agora paga o pato do erro é o aposentado holandês ou dinamarquês que descobre, no extrato do mês, que sua poupança de trinta anos virou pó porque alguém convenceu o regulador de que turbina eólica na Escócia é ativo defensivo.
O ponto que ninguém quer verbalizar é este: o setor de infraestrutura privada, no formato que floresceu nos últimos quinze anos, é uma criatura de laboratório dos bancos centrais. Sem juro real negativo e sem a promessa política de que o Estado bancaria eternamente a transição verde, aquele preço de aquisição jamais teria sido pago. O que se vendia como investimento de longo prazo era, na verdade, arbitragem regulatória com nome bonito. Comprar concessão financiada a um por cento para receber tarifa garantida por lei é atividade rentável enquanto o um por cento existe. Quando vira quatro, o modelo colapsa e todo mundo descobre, tarde demais, que estava apostando em política pública e não em produtividade.
Há aqui uma lição que o mercado europeu vai fingir não aprender, como sempre. Toda vez que o Estado inventa uma classe de ativo por decreto, criando artificialmente demanda via mandato regulatório e retorno via subsídio, forma-se uma bolha específica naquele nicho. Foi assim com as hipotecas subprime americanas, foi assim com a dívida grega, foi assim com a bolha das ferrovias no século dezenove, e agora é assim com a infraestrutura verde. O nome muda, o vestido é diferente, mas o mecanismo é rigorosamente o mesmo: dinheiro barato mais garantia estatal implícita mais rótulo moralmente irresistível igual capital fluindo em massa para onde não deveria fluir, até que a realidade cobra a fatura.
A queda da Antin não é acidente, é sintoma. É o mercado tentando, ainda que com atraso, precificar o que sempre foi verdade: não existe rentabilidade sustentável construída sobre subsídio permanente e juro artificial. Uma hora o contribuinte cansa, uma hora a inflação obriga o banco central a subir juros de verdade, uma hora o eleitor descobre que está pagando conta de luz para bancar dividendo de gestora luxemburguesa. Nesse momento, quem confundiu política industrial com investimento produtivo descobre a diferença da pior forma. E os aposentados europeus, que nunca foram consultados, aprendem que a moralização do capital via ESG custa caro, muito caro, e a fatura chega sempre no pior momento possível.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.