A Broadcom subiu forte hoje e o noticiário financeiro tratou o evento como se fosse mérito puro de engenharia, como se chips de inteligência artificial brotassem do solo californiano por geração espontânea. Quer dizer, ninguém parou para perguntar de onde vem o combustível que faz uma empresa valer centenas de bilhões praticamente da noite para o dia. A resposta incomoda porque é simples: vem da mesma fonte que sempre alimentou todas as bolhas da história moderna, ou seja, expansão monetária travestida de inovação, crédito barato disfarçado de visão estratégica e uma narrativa tão sedutora que ninguém ousa questionar enquanto o gráfico sobe.
Olha, o argumento oficial é conhecido. Hyperscalers, grandes contratos, parceria com gigantes que precisam de silício customizado para treinar modelos cada vez maiores. Tudo verdade, tudo factual, e tudo absolutamente insuficiente para explicar a velocidade com que o valor de mercado se multiplica. Existe um detalhe que o analista de banco não menciona no relatório matinal, porque mencionar seria perder o emprego: nada disso seria possível sem juros que durante anos ficaram artificialmente baixos, sem balanços de bancos centrais inflados a níveis que envergonhariam qualquer planejador soviético, e sem a certeza tácita de que, se a coisa azedar, o contribuinte paga a conta enquanto o acionista embolsa o lucro.
Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um boom tecnológico desta magnitude aconteceu sem que houvesse, em paralelo, uma torrente de liquidez global procurando desesperadamente onde se acomodar? Foi assim com as ferrovias no século dezenove, foi assim com o rádio nos anos vinte, foi assim com as pontocom no fim dos anos noventa, e está sendo assim agora. A tecnologia é real, os ganhos de produtividade podem até ser reais, mas o preço pago hoje pelas ações é a soma da realidade com um delírio coletivo financiado por dinheiro que não existia em valor real antes de alguém apertar um botão.
O que se vê é a manchete eufórica, o investidor pessoa física comprando no topo achando que descobriu o futuro, o fundo de pensão alocando bilhões porque o consultor garantiu que era seguro. O que não se vê é o aposentado de classe média perdendo poder de compra todo mês porque a impressão monetária que alimenta essa euforia corrói silenciosamente cada real, cada dólar, cada poupança que não conseguiu entrar na ciranda. Existe transferência de riqueza acontecendo em tempo real, dos que produzem e poupam para os que estão posicionados nos ativos certos no momento certo, e ninguém chama isso pelo nome correto, que é confisco distribuído via inflação de ativos.
O mais cômico é o tom solene com que se discute se a Broadcom vai bater a expectativa do próximo trimestre, como se houvesse algum método científico ali. Não há. Há fé, há momentum, há a esperança de que o próximo idiota pague mais caro pela mesma ação. Quando o ciclo virar, e ele sempre vira porque ciclos financiados por crédito artificial sempre viram, os mesmos jornalistas que hoje celebram cada alta vão escrever colunas comovidas sobre como ninguém poderia ter previsto. Poderia. Bastava olhar para o que sustenta o preço em vez de olhar para o preço.
Fica a pergunta que ninguém da CNBC vai fazer: se a inteligência artificial é tão revolucionária quanto dizem, por que ela precisa de juros baixos, estímulo fiscal infinito e propaganda em horário nobre para sustentar suas valuations? Coisa boa de verdade não precisa de muleta monetária. Quando a maré baixar, vamos descobrir quem estava nadando pelado, e suspeito que a fila vai ser maior do que o consenso de Wall Street está disposto a admitir.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.