A Chipotle Mexican Grill disparou nos pregões americanos e o motivo é de uma simplicidade ofensiva para quem vive de complicar a economia: a empresa entregou números melhores que o esperado, anunciou recompra de ações, reorganizou a operação e o mercado, esse organismo vivo que ninguém manda, mas todo mundo tenta, premiou a competência com capital. Não houve decreto, não houve ministro batendo no peito em rede nacional, não houve programa de estímulo. Houve gente fazendo comida, servindo cliente e cuidando da margem. Foi só isso. E foi tudo.

Quer dizer, a notícia parece banal até você comparar com a paisagem brasileira, onde toda alta de ação é tratada como suspeita, toda margem gorda é vista como pecado e toda recompra de papel vira manchete de jornal econômico sugerindo que a empresa devia estar pagando mais imposto, contratando mais gente ou cumprindo alguma agenda inventada na semana passada por um burocrata que nunca abriu uma quitanda. O capitalismo americano, com todos os seus defeitos, ainda preserva a noção elementar de que lucro é resultado, não crime. No Brasil, lucro é confissão de culpa.

Olha, observe a mecânica do que aconteceu. A rede vinha apanhando no preço da ação, perdendo tráfego, ouvindo analista falar em estagnação. A resposta do conselho não foi pedir socorro ao Tesouro americano, não foi exigir tarifa contra rede concorrente, não foi montar comissão tripartite com governo e sindicato para discutir o futuro do guacamole. A resposta foi mexer no produto, ajustar operação, recomprar papel quando ele estava barato e deixar o tempo trabalhar. O mercado viu, processou, premiou. Esse mecanismo, que parece magia para quem foi alfabetizado em planejamento central, é o sistema mais antigo e mais honesto que a humanidade já inventou para coordenar a ação de milhões de pessoas sem precisar mandar em nenhuma delas.

Me diz uma coisa: quanto custaria, em termos de regulação trabalhista, tributação em cascata, insegurança jurídica e folha de pagamento parafiscal, replicar a operação da Chipotle no Brasil? A resposta sincera é que não custaria, seria simplesmente impossível nos mesmos moldes, porque cada burrito brasileiro nasceria carregando nas costas um exército invisível de procuradores, fiscais, secretários adjuntos e consultores de compliance que precisam ser alimentados antes do cliente. E ainda assim, quando a empresa conseguisse sobreviver a essa via crucis e dar lucro, viria o coro habitual exigindo que ela devolvesse à sociedade o que a sociedade nunca lhe deu, apenas permitiu, contrariada, que ela produzisse.

O que se vê na manchete é a ação subindo. O que não se vê, e é exatamente onde mora a lição, são as milhares de Chipotles brasileiras que não nasceram porque o ambiente esmagou a vontade no berço, que fecharam antes do segundo ano porque a carga tributária comeu o capital de giro, que migraram para a informalidade porque a formalidade virou luxo de multinacional. Cada gráfico verde em Nova York é a sombra invisível de um gráfico vermelho que não foi traçado em São Paulo, em Belo Horizonte, no interior do Ceará. A diferença entre os dois países não está no povo, está no peso morto que um carrega e o outro, com toda sua mediocridade fiscal recente, ainda consegue manter mais leve.

No fim, a alta da Chipotle não é notícia sobre comida mexicana, é parábola sobre liberdade econômica. Onde o capital pode entrar e sair sem pedir licença, onde o lucro não precisa pedir perdão e onde o empresário não precisa fingir vocação social para ser tolerado, a riqueza aparece. Onde o Estado é sócio compulsório de tudo, a riqueza fantasia de pobreza para não ser confiscada. Não é mistério, é aritmética moral. E enquanto o brasileiro continuar achando que o problema é o lucro do outro, e não o tamanho do governo no seu próprio bolso, vai seguir aplaudindo Wall Street pela janela e xingando a Faria Lima da calçada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.