A FormFactor, fabricante americana de cartões de prova para testar chips de semicondutores, viu suas ações desabarem cerca de 6% num único pregão, e o noticiário financeiro corre atrás de explicações como quem procura desculpa depois do fato consumado. Revisão de projeção, demanda mais fraca em memória DRAM, exposição a clientes que estão segurando capex, escolha o pretexto que mais agradar ao gestor de fundo que ainda não vendeu. O fato concreto é que um papel que andou nas costas da euforia de inteligência artificial lembrou ao acionista que semicondutor, antes de ser narrativa de futuro, é negócio cíclico, intensivo em capital, e refém de meia dúzia de clientes gigantes que mandam no setor.

Quem acompanhou o ciclo anterior já viu esse filme. Toda vez que o crédito barato inflou os múltiplos do setor de tecnologia, surgiu um coro afirmando que desta vez era diferente, que a demanda era estrutural, que o ciclo tinha sido domado pela engenharia financeira moderna. E então veio 2001, veio 2008, veio 2022, e cada um desses anos enterrou a tese de que árvore cresce até o céu. Cartão de prova de wafer é insumo de capex de fábrica, e capex de fábrica é a primeira coisa que executivo de Samsung, Micron e SK Hynix corta quando o estoque de memória começa a sobrar na prateleira. Não é mistério, é aritmética.

Agora, me diz uma coisa: por que o pequeno investidor brasileiro, que comprou FormFactor via BDR ou ETF de semicondutor depois de ler manchete sobre a revolução da IA, é sempre o último a saber? Porque a engrenagem do mercado de capitais americano funciona assim. O fundo institucional recebe o guidance revisado por canal privilegiado, o analista sell side ajusta o preço alvo na surdina, o gestor reduz posição em silêncio, e quando a notícia chega ao terminal da Investing aberto no celular do dentista em Belo Horizonte, o estrago já está precificado. Siga o dinheiro, e você verá que o prejuízo de 6% não evaporou; mudou de bolso.

Há ainda a parte que ninguém quer discutir, que é a dependência absurda do setor em relação a subsídios estatais. O CHIPS Act americano, com seus 52 bilhões de dólares de dinheiro do contribuinte despejado em fabricantes de chip, criou uma distorção de incentivos que está apenas começando a aparecer no balanço das empresas. Quando o governo banca o capex, a alocação de capital deixa de obedecer à demanda real e passa a obedecer ao lobby. Construa fábrica onde o senador quer voto, não onde o mercado pede produção. O resultado inevitável é capacidade ociosa, margem comprimida e o tipo de surpresa que faz a ação cair 6% num dia de quarta-feira qualquer.

O ponto que escapa ao colunista médio de economia é que o problema não é a FormFactor, nem a Micron, nem a Samsung. O problema é a ilusão coletiva de que setores tocados a juro artificialmente baixo e a subsídio bilionário podem crescer indefinidamente sem pagar o pedágio do ciclo. Cada bull market em semicondutor termina exatamente do mesmo jeito, com excesso de estoque, demanda evaporando e analista jurando que não viu chegar. Repete há cinquenta anos, e a cada repetição o mercado finge que é a primeira vez.

Quem leva a sério a natureza humana sabe que ninguém aprende com o ciclo, porque aprender exigiria humildade, e humildade é a virtude mais escassa do mercado financeiro. A FormFactor caiu hoje, vai cair de novo, e voltará a subir quando a próxima onda de capex empurrar a história adiante. No meio do caminho, o investidor de varejo paga a conta do ensino, e o gestor institucional cobra dois e vinte para ensinar a lição. O resto é narrativa para vender newsletter.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.