A Hertz volta a brilhar no pregão e a manada corre atrás do papel como se nada tivesse acontecido em 2020, quando a empresa foi à falência, deu calote em credores e ainda assim conseguiu o feito raríssimo de fazer pequenos investidores comprarem ações de uma companhia tecnicamente quebrada porque um fórum de internet mandou comprar. Hoje a alta vem embalada por relatório de analista, expectativa de corte de custos, frota renovada, parceria com inteligência artificial, escolha o cardápio narrativo que mais lhe agrada. O fato concreto é que o preço subiu. O resto é literatura para justificar o que já aconteceu.
Quem acompanha o teatro entende o roteiro. Existe um padrão que se repete com fidelidade litúrgica nos mercados desde que bancos centrais transformaram juros em variável política e liquidez em religião de Estado. Cria-se uma narrativa, um fundo grande monta posição comprada antes da narrativa estourar, o relatório sai, o varejo entra correndo achando que descobriu a sétima maravilha, o fundo distribui as ações nas alturas e some. Quando a poeira baixa, o pequeno investidor segura o mico, o gestor embolsa a performance fee, e a imprensa especializada escreve coluna explicando por que era óbvio que aquilo ia subir. Sempre depois. Nunca antes.
A Hertz é caso de estudo de tudo que há de errado no capitalismo de compadrio financeirizado. A companhia quebrou porque tomou dívida pesada para recomprar as próprias ações, inflar o preço e premiar executivos com bônus atrelados ao papel. Quando a pandemia chegou, a estrutura ruiu como casa de palha. Pequenos investidores ainda foram convencidos a comprar ações durante o processo de falência, num episódio que envergonharia qualquer regulador sério se ainda houvesse regulador sério. A empresa renasceu, voltou à bolsa, apostou pesado em carros elétricos numa decisão desastrosa, teve que vender a frota com prejuízo, e agora reaparece nas manchetes como oportunidade de compra. A memória do mercado dura, em média, o tempo de um trimestre fiscal.
Olha, a pergunta interessante não é por que a Hertz sobe hoje. A pergunta é por que existem tantos zumbis corporativos rondando os pregões americanos, vivos apenas graças a refinanciamentos sucessivos viabilizados por juros artificialmente baixos durante uma década e meia. Quando o dinheiro custa quase nada, sobrevive qualquer coisa, inclusive empresa que já provou não saber tocar o próprio negócio. O mercado livre, de verdade, teria sepultado a Hertz em 2020 e dado o lugar a operadores melhores. O que vemos é outra coisa: um sistema onde a falência virou pit stop, o calote virou estratégia, e o ressurgimento virou rotina, tudo lubrificado por uma engrenagem monetária que premia o endividamento e pune a poupança.
Me diz uma coisa, quem está realmente comprando essas ações hoje? Não é a viúva de Pasadena. Não é o trabalhador que economiza no aplicativo de corretagem. São algoritmos respondendo a outros algoritmos, fundos quantitativos perseguindo momentum, formadores de mercado fazendo o que sempre fazem, e uma pequena parcela de investidores de varejo entrando atrasada porque viu o gráfico verde no celular. A análise fundamentalista nesse ambiente tem o peso de uma carta ao Papai Noel. O que move o preço é fluxo, narrativa e liquidez, nessa ordem, e nenhum dos três tem qualquer relação com a saúde real da empresa.
Vai subir mais amanhã? Talvez. Vai despencar na semana que vem quando um relatório qualquer mostrar que o cenário não era tão róseo? Também é possível. O que se pode afirmar com segurança é que o investidor que entra correndo atrás de alta de um dia, baseado em manchete genérica, está repetindo o ritual que enriqueceu gerações de gestores e empobreceu gerações de pequenos poupadores. Mercado não é cassino, dizem os manuais. Olhando para a Hertz, dá vontade de discordar dos manuais.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.