A Nokia Oyj acordou em festa nas bolsas europeias, e o noticiário financeiro, com aquela cara de quem descobriu a roda, tenta explicar o fenômeno como se fosse mistério insondável. Não é. Quando um governo gasta uma década empurrando bilhões em subsídios para empresas que produzem slides de ESG enquanto a infraestrutura crítica do continente envelhece, basta um sopro de realidade, um contrato robusto, um sinal de que a China não vai dominar sozinha o 6G, e o capital corre desesperado para o último fabricante europeu de equipamentos de rede que ainda respira. O salto da ação não é euforia, é pânico disfarçado de otimismo.
Olha, o que se vê é o gráfico verde, a manchete entusiasmada, o analista de banco repetindo jargão sobre momentum. O que não se vê é o cemitério de concorrentes europeus que foram triturados por duas décadas de política industrial confusa, de regulação que punia o sucesso, de Bruxelas tratando telecomunicações como se fosse questão moral em vez de engenharia pesada. A Ericsson sobrevive a duras penas, a Alcatel virou apêndice, a Siemens vendeu sua divisão há tempos. Sobrou a Nokia, e mesmo essa só está viva porque a Finlândia, ao contrário de boa parte do continente, ainda tem um resquício de pragmatismo nórdico que impede o pior.
Quer dizer, é fascinante observar o ciclo. Primeiro, o burocrata decide que o futuro é verde, digital, inclusivo e sustentável, todas essas palavras-ônibus que servem para justificar qualquer transferência de dinheiro do contribuinte para o lobista bem conectado. Segundo, o capital privado, vendo o subsídio, abandona setores produtivos reais e migra para a caça ao incentivo fiscal. Terceiro, a infraestrutura crítica, aquela que não vira manchete porque funciona em silêncio, definha por falta de investimento. Quarto, alguém acorda, geralmente quando um adversário geopolítico já está três lances à frente no tabuleiro, e descobre que a Europa não fabrica mais nada essencial. Aí o capital volta correndo, e a ação dispara.
Me diz uma coisa, alguém em Bruxelas vai aprender a lição? Claro que não. A mesma máquina que estrangulou a indústria de redes europeia agora vai querer salvá-la com novos programas, novos fundos, novas agências reguladoras com nomes em quatro idiomas e zero competência técnica. Vão chamar de European Sovereign Tech Initiative ou alguma sigla pomposa equivalente, vão torrar mais alguns bilhões, e o resultado prático será enriquecer consultores de Davos enquanto a Nokia continua sendo a única bala no cano, vivendo do seu próprio mérito apesar do peso morto institucional que carrega nas costas.
O escândalo silencioso é este: o mercado, deixado em paz, já teria reorganizado o setor há muito tempo. Capital teria fluído para onde havia retorno real, engenheiros teriam migrado para onde havia desafio técnico, fusões teriam consolidado o que precisava ser consolidado. Em vez disso, tivemos vinte anos de planejamento estratégico continental, de comissões, de diretivas, de relatórios encadernados, e o resultado é uma única empresa solitária carregando nas costas o peso de uma civilização inteira que decidiu terceirizar sua infraestrutura crítica para evitar o desconforto de pensar com clareza. A bolsa hoje aplaude a Nokia. Deveria estar de luto pelo continente.
Cada disparada dessas é, no fundo, uma confissão. Confissão de que o planejador errou, que o subsídio foi desperdiçado, que a regulação atrapalhou, que o mercado, mesmo amarrado, ainda consegue produzir mais valor numa manhã do que toda a Comissão Europeia em uma década. A Nokia sobe porque a realidade venceu a ideologia, ainda que por um dia. Amanhã, o burocrata acorda, e a guerra recomeça.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.