A Pharvaris disparou na sessão porque anunciou resultados positivos de fase avançada do deucrictibant, molécula oral para angioedema hereditário, uma doença rara e cruel que sufoca literalmente quem tem o azar de carregar a mutação. Os investidores fizeram o que investidor faz quando cheira monopólio garantido por vinte anos: compraram tudo o que viram pela frente. A ação subiu com força e os analistas de banco, aqueles mesmos que descobriram a companhia ontem, hoje falam como se tivessem parido a tese.

Olha, ninguém aqui vai fingir que a ciência não é boa. É boa. Uma pílula que substitui injeção subcutânea em pacientes que vivem com medo de sufocar dormindo é ganho civilizacional real, disso não se discute. O que se discute é o teatro. Porque a mesma molécula, num mercado minimamente livre, chegaria mais rápido, custaria uma fração e não dependeria de um ritual de três fases clínicas desenhado para queimar bilhões e afastar concorrente pequeno. O sistema atual não protege o paciente, protege o incumbente. E o incumbente, quando descobre um nicho de doença rara com preço tabelado em seis dígitos por ano, entra no páreo como jogador de pôquer que já viu a carta do adversário.

Siga o dinheiro e a fábula se desmonta sozinha. Quem paga a festa da Pharvaris amanhã? Sistemas públicos de saúde na Europa, o Medicare nos Estados Unidos, planos privados que repassam ao empregador, que repassa ao consumidor via preço de tudo o que ele compra. O acionista comemora hoje um fluxo de caixa futuro que sairá, no fim da linha, do bolso de gente que nunca ouviu falar em angioedema hereditário e jamais foi consultada se gostaria de subsidiar tratamento de doença rara alheia. Isso não é caridade, é transferência compulsória disfarçada de inovação. E o mais bonito é que ninguém precisa apontar arma para ninguém, basta a bênção regulatória que transforma exclusividade em lei natural.

Existe uma ilusão confortável de que sem o atual arcabouço de patentes longas e barreiras regulatórias monumentais ninguém inventaria remédio nenhum. É a mesma lógica de quem acha que sem subsídio agrícola o país passaria fome, sem tarifa protetora a indústria sumiria, sem banco central o dinheiro perderia valor. O que não se vê, porque é invisível por definição, é o universo paralelo em que a pesquisa clínica custaria um décimo, moléculas concorrentes chegariam em paralelo, e o preço de uma pílula para doença rara não precisaria financiar iate de executivo em Mônaco. Mas esse universo não gera manchete, porque manchete precisa de vilão e herói, e o herói de hoje veste jaleco e fala em conference call.

A alta da Pharvaris, portanto, é notícia econômica só na superfície. No fundo, é retrato da arquitetura em que ciência de verdade convive com renda de monopólio, em que o mérito do laboratório se mistura ao privilégio da caneta reguladora, e em que o investidor esperto entendeu há muito tempo que a melhor tese de crescimento não é vender mais barato para mais gente, é vender mais caro para quem não tem escolha. Aplaudir a disparada sem enxergar a engrenagem é o esporte favorito de quem confunde preço de ação com prosperidade nacional. Enquanto isso, o paciente sufoca, paga e agradece.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.