A Tandem Diabetes Care disparou na sessão e os analistas correram para celebrar o "momento" da empresa, a "execução brilhante" do management, a "demanda robusta" pelos sistemas de bomba de insulina. Tudo muito bonito, tudo muito asséptico, tudo muito conveniente. Ninguém parou para perguntar a única coisa que importa quando uma fabricante de dispositivos médicos vira queridinha de Wall Street do dia para a noite, quem está pagando essa conta. E a resposta, como sempre, é desconfortável demais para caber no relatório do banco.

O modelo de negócio da empresa é uma maravilha de engenharia financeira moderna, e por engenharia financeira moderna leia-se captura de dinheiro alheio com aparência de inovação tecnológica. A bomba é vendida ao paciente, mas quem reembolsa é o seguro, e quem banca o seguro em última instância é o Medicare, o Medicaid, ou o pagador de impostos via subsídio de plano. O paciente vê o dispositivo, o médico prescreve, a seguradora repassa, e no fundo da cadeia tem um contribuinte que jamais ouviu falar da Tandem assinando o cheque sem saber. É a velha janela quebrada com display digital, todo mundo aplaude o emprego criado, ninguém vê os mil empregos que morreram porque o dinheiro do contribuinte foi parar ali em vez de em outro lugar.

Repare na perversão sutil do incentivo. A empresa não tem incentivo para curar o diabetes, tem incentivo para gerenciar o diabetes para sempre. Cura é o pior pesadelo do acionista de uma fabricante de bomba de insulina, é exatamente o tipo de catástrofe que faria a ação despencar amanhã. O que o mercado está precificando hoje, com euforia, é a certeza estatística de que dezenas de milhões de americanos vão continuar diabéticos pelos próximos quarenta anos, comendo o que o lobby do açúcar empurra, comprando os dispositivos que o lobby médico prescreve, com a conta dividida entre eles e o sujeito que paga imposto em Ohio. Isso não é capitalismo, isso é compadrio com jaleco branco.

E aqui entra o detalhe que ninguém em Faria Lima ou Manhattan tem coragem de dizer em voz alta. Quando o governo cria um sistema em que o terceiro pagador absorve qualquer preço, o preço vira ficção. Uma bomba que custaria oitocentos dólares num mercado verdadeiramente livre custa oito mil porque o fabricante sabe que o seguro paga, o seguro sabe que repassa ao prêmio, o prêmio sabe que o empregador deduz, e o empregador sabe que o contribuinte subsidia. É uma cadeia de irresponsabilidade calibrada para que ninguém, em ponto algum, tenha incentivo para perguntar quanto custa. Daí a ação subir, daí o CEO ganhar bônus de oito dígitos, daí o analista escrever que a tese é sólida.

O mais fascinante é a coreografia do discurso. Falam em "inovação", falam em "qualidade de vida do paciente", falam em "tecnologia de ponta", e tudo isso é verdade no sentido literal e mentira no sentido moral. A tecnologia existe, funciona, ajuda gente de verdade. Mas o arranjo institucional que transforma essa tecnologia numa máquina de extrair renda do contribuinte é o oposto de um mercado funcionando, é um mercado capturado fingindo ser livre. Quem confunde as duas coisas, ou está sendo ingênuo, ou está sendo pago para não enxergar.

A festa da Tandem hoje é a festa de toda uma indústria que aprendeu o segredo dos segredos do capitalismo americano contemporâneo, privatizar o lucro, socializar o custo, e contratar uma agência de relações públicas para chamar isso de progresso. Enquanto o contribuinte dorme, a ação sobe. E quando a conta chegar, e ela sempre chega, vão dizer que foi imprevisível, sistêmico, culpa do mercado. Mercado livre não quebra calado, mercado capturado sim.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.