A York Space Systems vê suas ações desabarem e o mercado finge surpresa, como se fosse novidade que empresa cujo faturamento depende quase integralmente de contratos do Pentágono e da Space Development Agency seja, na prática, um departamento militar com CNPJ próprio e ações na bolsa. Quer dizer, alguém precisa explicar para o investidor desavisado que aquilo que ele comprou achando ser tecnologia de ponta é, na verdade, uma aposta na continuidade do apetite fiscal do governo americano por satélites de baixa órbita. E apetite fiscal, como toda fome induzida por impressora de dinheiro, é coisa instável.

Olha, o setor espacial privado americano dos últimos anos é um caso de manual sobre como o capital flui não para onde há demanda real, mas para onde há promessa de cheque do contribuinte. A York foi avaliada em mais de um bilhão de dólares fabricando satélites pequenos para uma agência que existe há cinco anos e que ainda precisa justificar seu orçamento diante de um Congresso cada vez mais cético com gastos militares discricionários. Quando o vento muda em Washington, quando uma comissão atrasa um aditivo contratual, quando um relatório da GAO levanta dúvidas sobre cronograma, a ação derrete. Não é mercado, é dependência química.

Me diz uma coisa, que tipo de capitalismo é esse em que o sucesso de uma empresa de tecnologia se mede pela habilidade do seu departamento jurídico em ganhar licitações federais e pela competência do seu lobby em Capitol Hill? O que se vê é o anúncio glamoroso de uma constelação de satélites, o CEO em entrevista falando em revolucionar a defesa nacional, o IPO bem-sucedido. O que não se vê é o pequeno empresário que pagou imposto para financiar essa euforia, o investidor de varejo que comprou no topo achando que estava entrando no novo SpaceX, e o engenheiro de uma empresa concorrente sem contatos políticos que viu seu projeto morrer porque o orçamento já tinha dono.

A queda de hoje, seja qual for o gatilho específico, é apenas a manifestação visível de uma doença estrutural. Empresas que crescem na sombra do gasto público desenvolvem músculos errados; aprendem a otimizar relatórios de conformidade, não produtos; aprendem a navegar burocracia, não a competir. Quando o mercado real bate na porta, ou quando o governo dá uma fungada de constipação fiscal, essas empresas descobrem que nunca souberam andar sem as muletas que receberam ainda no berçário. É a velha história do bezerro de ouro, só que agora orbitando a Terra a quatrocentos quilômetros de altitude.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara ainda. A Space Development Agency torra bilhões anuais comprando hardware de meia dúzia de fornecedores ungidos, distribui contratos com critérios que nenhum auditor independente conseguiria reproduzir, e gera no mercado privado a ilusão de que existe uma indústria espacial pujante quando o que existe é uma teia de fornecedores do Estado se autocongratulando em conferências patrocinadas pelo próprio Estado. Tire o subsídio e veja quantos sobrevivem seis meses. A resposta honesta é desconfortável.

A lição que ninguém quer aprender é a mais antiga de todas: prosperidade construída sobre dinheiro alheio confiscado via tributação não é prosperidade, é miragem contábil com prazo de validade. O investidor que hoje amarga prejuízo na York não foi vítima do mercado, foi vítima de acreditar que o mercado existia ali. Onde há governo escolhendo vencedores, não há concorrência, há cortesãos. E cortesão, quando o rei tosse, é o primeiro a cair da carruagem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.