Olha, é fascinante a coreografia. Toda vez que se aproxima a baixa temporada, as grandes companhias aéreas saem em fila indiana anunciando, com ar de responsabilidade fiscal, que vão "racionalizar malha", "calibrar capacidade", "otimizar a operação no inverno". O analista de banco aplaude, a ação sobe, o jornal especializado reproduz o release como se fosse jornalismo. E o passageiro, esse coitado que paga a conta no final, descobre em janeiro que aquela rota de quatro voos diários virou um voo, e que o assento na janela agora custa o equivalente a um salário mínimo regional.

Quer dizer, ninguém aqui é ingênuo. Existe sim sazonalidade no transporte aéreo, e qualquer empresa que ignorasse isso quebraria em dois trimestres. O problema não é o ajuste, é a sincronia milimétrica do ajuste. Quando três ou quatro empresas dominam mais de oitenta por cento do mercado e todas, simultaneamente, decidem cortar capacidade na mesma janela e na mesma magnitude, isso não se chama disciplina de mercado. Tem outro nome no manual de defesa da concorrência, mas o nome é feio e ninguém quer escrever.

Me diz uma coisa: por que esse mercado é tão concentrado? Não é porque o brasileiro, ou o americano, ou o europeu, preferem voar em três empresas em vez de trinta. É porque a aviação comercial é, há décadas, um dos setores mais regulados, mais protegidos e mais subsidiados do capitalismo moderno. Slot aeroportuário virou ativo escasso por decreto, autorização de rota é favor político, isenção de combustível é benesse fiscal, socorro em pandemia é cheque em branco do contribuinte. Cada barreira de entrada que o regulador ergueu em nome da "segurança" e da "estabilidade do setor" é um tijolo no muro que protege os incumbentes da concorrência real. O cartel não precisa se reunir em sala fechada, ele se reúne no gabinete da agência reguladora, e a ata da reunião se chama portaria.

O mais bonito da história é o vocabulário. Repare como ninguém diz "vamos diminuir a oferta para subir o preço", embora seja exatamente isso, ensinado no primeiro capítulo de qualquer manual de microeconomia. Diz-se "ajuste de capacidade", "eficiência operacional", "gestão de yield". Há uma indústria inteira de eufemismos cuja única função é traduzir, para o ouvido do consumidor, aquilo que seria escandaloso se dito em português claro. E funciona, porque a maioria das pessoas confunde palavra técnica com competência técnica, e abaixa a cabeça achando que não entende do assunto. Entende, sim. Só foi treinada para não confiar no que entende.

E aqui está a parte que a colunista do caderno de economia jamais vai escrever: a solução não é mais regulação, é menos. Não é "fiscalizar com mais rigor" os preços, é abrir os slots, liberar as rotas, deixar a aviação regional respirar, parar de tratar cada novo entrante como suspeito até prova em contrário. Cada vez que alguém clama por "intervenção do governo para baixar a passagem", está pedindo ao bombeiro que apague o incêndio jogando mais gasolina, porque foi o próprio governo, com décadas de proteção generosa aos grandes, que construiu o oligopólio que hoje aperta a sua carteira no mês de julho.

No fim das contas, o anúncio de corte de capacidade no inverno é um espelho. Mostra com uma clareza brutal que mercado cativo não dá preço justo, que concorrência fabricada por regulador não é concorrência, e que toda vez que uma indústria fica confortável demais com o Estado, é o consumidor quem dorme no aeroporto. Quem acredita que voar caro no inverno é lei da natureza simplesmente nunca viajou num mercado de verdade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.