Quando os analistas de mercado se reúnem em coro para anunciar que um setor está "fortemente sustentado", o investidor experiente faz o que qualquer pessoa razoável faria diante de um vendedor de carro usado jurando que o motor é novo: olha por baixo do capô. E o capô do atual ciclo nuclear esconde uma mecânica antiga, conhecida, repetida tantas vezes que deveria ser ensinada nas escolas como advertência. O combustível desse boom não é o urânio, é o crédito barato somado a centenas de bilhões em garantias estatais, créditos fiscais multimilionários por reator e contratos de longo prazo costurados na surdina entre governos e gigantes da tecnologia que precisam alimentar seus data centers de inteligência artificial. Tire essa muleta tríplice e veja quanto tempo a sustentação dura.

Olha, é preciso reconhecer o óbvio que ninguém na imprensa especializada quer dizer em voz alta. A energia nuclear, como qualquer outra fonte energética, deveria ter sobrevivido ou morrido pela frieza do cálculo econômico no mercado livre. Se ela é tão boa, tão limpa, tão eficiente quanto pregam agora, por que precisa de Inflation Reduction Act bancando 30% do custo de capital, de Loan Programs Office despejando empréstimos garantidos a juros que nenhum banco privado ofereceria, de regulações que abriram exceções para que big techs queimem capital comprando energia acima do preço de mercado para parecerem "verdes" aos acionistas? A resposta incomoda porque é simples. Sem essa engrenagem de privilégios, o ciclo não existiria, e o que chamam de robustez é apenas a espessura do colchão de dinheiro alheio sobre o qual o setor está deitado.

Me diz uma coisa, você lembra de onde vem o dinheiro do crédito fiscal? Vem do imposto que você pagou. Vem do imposto que o pequeno empresário pagou. Vem da inflação, esse confisco silencioso que o banco central executa quando expande a base monetária para financiar a generosidade pública com setores eleitos. Cada gigawatt anunciado em manchete tem do outro lado uma transferência de renda que não aparece no gráfico bonito do Investing. Aparece, sim, no preço do seu pão, da sua conta de luz no Brasil que importa custo de capital global, da sua aposentadoria que rende menos porque o capital foi desviado para onde o lobby foi mais eficiente, não para onde o consumidor demandou.

Há ainda o detalhe que o entusiasmo cobre com manto de progresso. Esses ciclos sustentados por intervenção tendem a produzir o mesmo final melancólico. Década de 1970, energia solar foi declarada futuro inevitável e virou cemitério de empresas quando o subsídio acabou. Década de 2000, biocombustíveis seriam a redenção e produziram fome global e falências em série. Década de 2010, a primeira onda nuclear pós Fukushima empacou em Vogtle e Hinkley Point com sobrecustos de mais de 100% sobre o orçamento original, financiados por quem? Pelo contribuinte e pelo consumidor cativo. Quem leu a história sabe que boom artificial não termina em maturidade tranquila, termina em ajuste doloroso, e quem segura a sacola é sempre o mesmo.

Não estou dizendo que reator pequeno modular não tenha mérito tecnológico, nem que descarbonização não seja uma demanda real do mercado. Estou dizendo que a forma como esse ciclo está sendo construído é uma fraude semântica. Chamam de mercado o que é planejamento central com etiqueta privada. Chamam de investimento o que é redistribuição forçada. Chamam de futuro o que é favorecimento presente disfarçado de visão estratégica. O capitalismo de compadrio aprendeu a se vestir de Vale do Silício e a falar a língua do ESG, mas o esquema é o mesmo dos coronéis do açúcar do século dezenove pedindo proteção alfandegária em nome do interesse nacional.

O ciclo está fortemente sustentado, dizem eles. Sustentado, sim. Pelos seus impostos, pela sua moeda corroída, pelo capital que deveria estar irrigando milhares de pequenos negócios e foi confiscado para alimentar três ou quatro consórcios bem conectados. Quando o subsídio expirar, e ele sempre expira, a sustentação some e fica o esqueleto. A pergunta não é se o boom nuclear vai entregar energia, é quem vai pagar a conta quando a impressora desligar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.