Olha que coisa curiosa. As mesmas capitais que nos anos noventa e dois mil decretaram a morte solene da energia nuclear, fecharam usinas funcionais, demoliram torres de resfriamento com champanhe e câmera de tevê, agora descobrem, com cara de quem nunca viu nada, que precisam desesperadamente de reatores. E os analistas de mercado, esses mesmos que aplaudiam o desmantelamento em nome da agenda verde, hoje juram que o ciclo de investimento nuclear é estrutural, sólido, irreversível. Quer dizer, era irreversível o desligamento, agora é irreversível o religamento. Convém ter memória curta para sobreviver no jornalismo econômico.

O que mudou não foi a física, foi a aritmética. Quando se prometeu ao eleitor que painel solar e cata-vento substituiriam termelétrica e reator, ninguém quis explicar que sol se põe, vento para, e bateria de lítio em escala industrial é uma fantasia que custa o produto interno bruto de um país médio. A conta veio. Veio na forma de Alemanha queimando carvão de novo, de França percebendo que sua frota nuclear envelhecida é o único motivo de não estar no escuro, de Japão reativando o que havia jurado nunca mais ligar. A realidade tem o péssimo costume de não respeitar conferência de clima.

E aí entra a parte que ninguém quer comentar em voz alta. Quem está financiando essa nova onda nuclear? Os mesmos fundos que ganharam fortunas com subsídio a renovável agora se posicionam para ganhar fortunas com subsídio a urânio. Os mesmos governos que arrancaram dinheiro do contribuinte para bancar a transição verde agora arrancam mais dinheiro do mesmo contribuinte para bancar a transição da transição. Siga a trilha das comissões, dos contratos, dos consultores que migram do conselho da empresa eólica para o conselho da empresa nuclear sem pestanejar. O figurino muda, a peça é a mesma.

O detalhe que escapa ao leitor desavisado é que reator nuclear funciona. Sempre funcionou. Não funcionava por capricho regulatório, por histeria pós Chernobyl recauchutada em Fukushima, por lobby anticompetitivo das petroleiras nos anos setenta e das eólicas nos anos dois mil. A tecnologia nunca foi o problema. O problema foi a engenharia social embutida na escolha energética, esse vício moderno de transformar termodinâmica em causa moral, como se elétrons tivessem opinião política. O resultado dessa imbecilidade custou trilhões e décadas de progresso tecnológico congelado.

Agora vem a parte cínica do espetáculo. Os pequenos reatores modulares, os tais SMRs, são vendidos como inovação revolucionária. Não são. São conceito dos anos sessenta engavetado por décadas porque a regulação tornou inviável construir qualquer coisa. Bastou o pânico energético soprar para os mesmos burocratas que travavam licenciamento agora correrem para liberar com selo de urgência climática. Repare no truque. Primeiro o Estado proíbe. Depois o Estado cria a crise pela proibição. Por fim o Estado se apresenta como salvador, oferecendo, com pompa, a solução que ele mesmo havia sequestrado. E cobra pedágio em cada etapa.

O ciclo nuclear está sustentado, sim, mas não pelas razões que os relatórios dos bancos repetem em coro. Está sustentado porque a mentira da transição verde sem energia firme bateu no muro da física, e nenhum discurso de Davos derruba muro de física. Está sustentado porque o Ocidente percebeu, tarde, que depender de gás russo e painel chinês era suicídio geopolítico. Está sustentado porque o contribuinte vai pagar a conta dessa virada como pagou a conta da virada anterior, sem nunca ter sido consultado em nenhuma das duas. Quem manda na sua tomada nunca foi você. E enquanto for assim, cada nova revolução energética será apenas o próximo capítulo da mesma pilhagem, com roupa nova e crachá renovado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.