A manchete chegou com ar de revelação, como se tivessem descoberto pólvora num galpão de fogos. Mercados emergentes podem liderar as ações globais no segundo semestre, dizem os relatórios das casas de análise, com gráficos coloridos e adjetivos cuidadosos. Quer dizer, descobriram agora que quando Washington despeja trilhões de dólares na própria economia, expande déficit como adolescente no cartão do pai e o Federal Reserve sinaliza cortes de juros, o capital faz exatamente o que sempre fez desde que o padrão-ouro virou peça de museu: foge da moeda que está sendo diluída e procura rendimento real onde ainda existe. Não há nenhuma genialidade nova nos emergentes. Há cansaço velho no centro do império monetário.

Olha, é preciso desmontar o vocabulário antes de aceitar a notícia. Quando dizem que os emergentes vão liderar, estão dizendo que países com juros de dois dígitos, moedas castigadas, ativos negociados a múltiplos de pechincha e governos fiscalmente irresponsáveis ficaram tão baratos que o estrangeiro com dólar derretendo na mão prefere o risco do Brasil, da Índia ou do México ao rendimento ridículo de um Treasury que mal cobre a inflação oficial, quanto mais a real. Isso não é vitória de modelo econômico. É arbitragem de capital fugindo da pior pilhagem monetária da história contemporânea, aquela executada pelo banco central que se vende como técnico e opera como tesoureiro de campanha.

Me diz uma coisa, quem ganha quando o fluxo entra? Não é o trabalhador do interior do Pará nem o pequeno comerciante de Guadalajara. Ganha o gestor que comprou ação na baixa, o banco que estrutura o ETF, o consultor que cobra dois e vinte para repetir o consenso da semana passada, e o governo local que vê a moeda apreciar artificialmente, finge que é competência da sua política fiscal e usa o respiro para gastar mais ainda. Quando o fluxo virar, e ele sempre vira, esses mesmos governos vão chorar choque externo, especulação internacional, ataque ao real, e ninguém vai lembrar que o boom foi importado, alugado, temporário.

A história desse filme já passou tantas vezes que dava pra decorar a trilha sonora. Anos setenta, o dólar enfraquece após o fim de Bretton Woods e a América Latina é inundada de petrodólares, festa que terminou na década perdida dos oitenta com inflação de quatro dígitos e moratória. Anos noventa, juro americano cai, capital corre para os tigres asiáticos, festa que terminou em 1997 com colapso cambial do Tailândia ao Brasil. Anos dois mil, dinheiro fácil pós-bolha ponto com infla o BRICS, festa que terminou em 2013 com o taper tantrum do Bernanke. Cada ciclo, os mesmos analistas, as mesmas casas, os mesmos adjetivos. E sempre quem fica segurando o mico é o pequeno investidor que entrou no topo achando que dessa vez era diferente.

O que ninguém escreve nos relatórios é a parte chata, aquela que não vende newsletter premium. Mercado emergente liderar não significa país emergente prosperar. Bolsa subindo com capital especulativo é fenômeno financeiro, não desenvolvimento econômico. O Brasil pode ter Ibovespa em máxima histórica enquanto o cidadão paga gasolina a dez reais, vê o governo torrar arrecadação recorde em programa eleitoral, e descobre que o crescimento de PIB anunciado veio de consumo de curto prazo financiado por dívida pública. A festa da bolsa nunca foi a festa do povo. Quem confunde uma coisa com a outra ou é ingênuo ou está vendendo alguma coisa, normalmente a segunda opção.

O segundo semestre vai ser o que sempre é nesses ciclos: enquanto a impressora do norte estiver ligada, o sul recebe migalhas em forma de fluxo, e a imprensa especializada vai chamar isso de oportunidade histórica. Quando a impressora parar, e ela vai parar quando a inflação americana voltar a morder, o mesmo capital vai embora na velocidade de um clique, deixando moeda em queda livre, déficit explodindo e governo local procurando culpado externo para a própria irresponsabilidade interna. Anota a data, guarda o link, volta aqui em dezoito meses. A profecia não é minha, é da aritmética monetária, que não negocia com narrativa de banco de investimento.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.