O Bank of America publicou mais uma daquelas notas que os analistas do mercado leem com cara de espanto, como se o diagnóstico fosse novidade. O euro segue pressionado, dizem eles, por diferencial de juros desfavorável, crescimento anêmico na zona do euro e fluxo de capital migrando para o dólar. Tradução para quem não vive de jargão de mesa de operações: a Europa está velha, regulada até a medula, gasta o que não tem e cobra de quem ainda produz. O resultado dessa equação numa moeda comum administrada por um comitê em Frankfurt era previsível desde o dia em que decidiram que vinte e tantos países com culturas fiscais opostas poderiam compartilhar a mesma impressora.
Olha, ninguém precisa de planilha do BofA para entender o que está acontecendo. Quando o Banco Central Europeu mantém juros artificialmente baixos durante uma década para salvar governos perdulários do sul, está subsidiando irresponsabilidade fiscal com o poder de compra do trabalhador alemão, holandês e finlandês. Isso tem nome técnico bonito, expansão monetária acomodatícia, e tem nome popular feio, confisco silencioso. A poupança do aposentado em Munique vira combustível para a aposentadoria precoce do funcionalismo grego, e ninguém vota nisso, ninguém é consultado, ninguém assina embaixo. A decisão sai pronta de um prédio que ninguém elegeu.
Quer dizer, o pessimismo do BofA não é análise, é constatação do óbvio que os economistas oficiais preferem não enxergar. A zona do euro produziu menos crescimento real per capita do que os Estados Unidos em praticamente todos os anos da última década, perdeu competitividade industrial para a China, importa energia cara porque destruiu sua própria matriz por motivos ideológicos e ainda regula cada respirada do empresário com diretivas que ocupariam uma biblioteca. Depois reclamam que o capital foge para Nova York. Capital não tem pátria, capital tem cálculo. E o cálculo na Europa fechou no vermelho.
Me diz uma coisa, quem ganha com essa estrutura? Siga o dinheiro e a resposta aparece sozinha. Ganham os governos que financiam déficit a juro de pechincha, ganham os bancos sistêmicos que sabem que serão socorridos quando a casa cair, ganham os burocratas que multiplicam regulamentos para justificar o próprio salário em Bruxelas, e ganham os exportadores alemães que prosperam com câmbio desvalorizado mesmo enquanto a poupança alemã derrete. Quem perde é sempre o mesmo personagem invisível, o cidadão comum que recebe em euros, poupa em euros e descobre, dez anos depois, que sua reserva de uma vida virou metade do que era em poder de compra real.
Há quem diga que o problema do euro é conjuntural, que basta o BCE cortar juros, que basta uma reforma aqui, um pacote ali. É o discurso de sempre, o mesmo que justificou cada intervenção desde 2008 e que produziu exatamente o atoleiro atual. Cada socorro gerou nova distorção, cada distorção exigiu novo socorro, e a espiral chegou no ponto em que a única ferramenta restante é desvalorizar a moeda para esconder a fatura. O BofA aposta contra o euro porque qualquer leitor atento da história monetária aposta contra moedas administradas por comitês políticos disfarçados de instituições técnicas. O fim dessa história está escrito há séculos em todas as línguas, do denário romano ao assignat francês.
A lição que ninguém quer aprender é que moeda não é decreto, é confiança acumulada em décadas de disciplina fiscal e produtividade real. A Europa abriu mão das duas coisas e agora se surpreende quando o mercado precifica o resultado. O euro vai continuar caindo não por culpa do dólar forte, mas porque foi construído sobre uma ficção política que finge ser ciência econômica. E ficção, mais cedo ou mais tarde, encontra a realidade. Sempre encontra.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.