Michael Kienle, recrutador alemão, mal terminou de elogiar a produtividade que a inteligência artificial trouxe ao seu próprio trabalho e já está exigindo que candidatos desliguem a câmera, mostrem as mãos e jurem solenemente não usar ChatGPT durante entrevistas. A cena é cômica e seria apenas mais uma esquisitice corporativa, não fosse o fato de revelar, com a clareza de uma radiografia, o estado atual de um mercado de trabalho que virou simulacro de si mesmo. As empresas treinaram seus departamentos inteiros para usar IA, automatizaram a triagem de currículos com algoritmos, despejaram milhões em softwares que filtram candidatos antes mesmo de um humano ler o nome deles, e agora se escandalizam porque o sujeito do outro lado da tela ousou fazer o mesmo.
Olha, há algo profundamente revelador nessa indignação seletiva. Quando o RH usa IA para descartar 95% dos currículos sem leitura humana, isso é eficiência, modernização, otimização de processos. Quando o candidato usa IA para responder uma pergunta de entrevista, isso é trapaça, desonestidade, falta de caráter. Note o truque: a ferramenta é a mesma, o que muda é quem detém o poder de decidir quem pode usá-la. É a velha lógica de quem fabrica a régua querendo medir os outros sem ser medido. E é exatamente assim que toda assimetria de poder se mantém, fingindo ser neutralidade técnica enquanto cobra de um lado o que liberou do outro.
Mas siga o dinheiro, que é onde a fábula desmorona. Empresas de recrutamento e plataformas de RH vendem para corporações pacotes anuais de IA generativa por preços que fariam corar um cardeal renascentista, prometendo cortar tempo de contratação pela metade. Os mesmos vendedores estão agora oferecendo, pasme, soluções de IA para detectar candidatos que usam IA. É o ciclo perfeito: vende-se o problema, vende-se a solução do problema, vende-se a solução da solução, e o cliente paga três vezes pela mesma neurose. Toda crise no fundo é oportunidade para alguém faturar, e o mercado de "autenticidade humana certificada" promete ser o próximo nicho bilionário.
O que ninguém quer dizer em voz alta é o seguinte: a entrevista de emprego, do jeito que a conhecemos, sempre foi um ritual de pouca eficácia preditiva. Décadas de pesquisa em psicologia organizacional mostram que conversas de quarenta minutos preveem desempenho profissional pouco melhor que cara ou coroa. O que a IA fez foi expor essa fragilidade. Quando qualquer candidato consegue performar competência mediante consulta instantânea a um modelo de linguagem, fica claro que o teatro nunca mediu o que dizia medir. Mediu apenas a capacidade do candidato de improvisar sob pressão diante de perguntas previsíveis, e improvisar sob pressão é precisamente o tipo de habilidade que importa pouco em quase todo trabalho real.
Há também a dimensão moral, que ninguém comenta porque ofende sensibilidades de ambos os lados. O recrutador que exige autenticidade do candidato é o mesmo que talvez tenha redigido o anúncio da vaga com IA, escrito o e-mail de rejeição com IA, pontuado o teste técnico com IA. Exige-se do mais fraco uma pureza que o mais forte abandonou faz tempo. E aqui está a essência do despotismo moderno, esse despotismo suave que não bate, não prende, apenas regula minuciosamente quem pode usar quais ferramentas, quando, e em qual contexto, sempre em nome do próprio bem do regulado. O candidato precisa ser autêntico para que a empresa possa continuar sendo artificial em paz.
O que se vê é a entrevista virando "zona livre de IA". O que não se vê é uma economia inteira que terceirizou para máquinas o trabalho cognitivo de baixo e médio valor, deixou os trabalhadores na sinuca de bico de competir contra a própria ferramenta que seus chefes usam, e agora finge surpresa quando esses trabalhadores recorrem à mesma muleta para sobreviver ao filtro. Não é problema técnico, é problema de contradição. E contradições, quando ignoradas por tempo suficiente, costumam se resolver de modos que ninguém escolheu.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.