Chris Senyek nem terminou de falar e os terminais Bloomberg já estavam coloridos de verde, como se a realidade pudesse ser cancelada por força do entusiasmo coletivo. A tese de Roth, da Wolfe, é simples e por isso mesmo incômoda: os múltiplos esticaram além do razoável, a concentração nas mesmas sete ou oito ações virou um truque de mágica que todo mundo já viu, e a narrativa do pouso suave depende de um Federal Reserve cortando juros num ritmo que a inflação subjacente não autoriza. Quando uma casa que vive de vender otimismo começa a recomendar prudência, a tradução para o português é direta: alguém grande está saindo pela porta dos fundos enquanto o varejo entra pela porta da frente.

Olha, o problema não é a Roth ter ficado cautelosa. O problema é por que ela precisou ficar cautelosa agora, e não há dois anos, quando a expansão monetária americana inflou tudo que tinha preço, do imóvel em Miami ao token de macaco no JPEG. O dinheiro impresso durante a pandemia não evaporou; ele migrou para os ativos financeiros e produziu a ilusão coletiva de que estamos mais ricos. Não estamos. Estamos com a mesma economia produtiva de antes, só que com unidades de conta diluídas e um múltiplo preço sobre lucro que só faz sentido se você acreditar que a inteligência artificial vai pagar dividendo eterno antes do primeiro processo antitruste.

O que se vê é o índice batendo recorde. O que não se vê é a dívida pública americana cruzando os trinta e seis trilhões, o serviço dessa dívida engolindo mais que o orçamento militar, e os bancos regionais sentados em carteiras de títulos longos que valem fração do que custaram. O que se vê é o investidor brasileiro comprando ETF americano via corretora digital com a sensação de estar diversificando. O que não se vê é que ele está concentrando, porque o S&P virou refém de meia dúzia de empresas que respondem por mais de um terço do índice. Diversificar comprando o todo, quando o todo é dominado por poucos, é estatística aplicada ao autoengano.

Siga o dinheiro e a história fica mais clara. Quem se beneficia de manter a festa rolando? Os gestores que cobram dois por cento ao ano sobre patrimônio em alta, os bancos que estruturam IPOs em janela de euforia, a mídia financeira que vende anúncio enquanto o gráfico sobe. Quem paga quando a música para? O aposentado que entrou no fundo no topo, o trabalhador que viu seu 401k evaporar trinta por cento em seis meses, o brasileiro que comprou dólar a seis para fugir da inflação local e descobriu que a inflação de ativos lá fora era ainda mais cruel. Cautela vendida por quem ganha com euforia é confissão, não conselho.

A grande mentira do ciclo atual é que o banco central tem ferramentas para evitar a próxima recessão. Não tem. A taxa de juros é o preço do tempo, e quando esse preço foi manipulado para zero durante mais de uma década, todas as decisões de investimento feitas naquele período carregam um erro de cálculo embutido. Empresas que só existem porque o crédito era de graça, projetos imobiliários viáveis só com juros negativos reais, startups queimando caixa porque o capital era infinito, tudo isso precisa ser liquidado para que o sistema de preços volte a transmitir informação verdadeira. Adiar essa liquidação com novos cortes só transfere o ajuste para depois, maior e mais doloroso.

Quando a estrategista de uma casa de research começa a recomendar cautela, ela não está prevendo o futuro. Está descrevendo o presente que o consenso ainda recusa enxergar. O pequeno investidor tem duas opções: ouvir o aviso enquanto ainda há tempo de ajustar a exposição, ou descobrir na carne, daqui a alguns trimestres, que a diferença entre o profissional e o amador no mercado é exatamente essa: o profissional sai cedo demais, o amador sai tarde demais, e quem fica entre os dois, recebendo comissão dos dois lados, sempre ganha.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.