A libra esterlina derreteu nos pregões desta semana e o gabinete em Londres entrou naquele estado de pânico silencioso que só os governos socialistas conhecem quando o mercado finalmente lê a planilha. Keir Starmer chegou ao poder prometendo "estabilidade", essa palavra mágica que na boca de político trabalhista significa sempre a mesma coisa, gastar mais, taxar mais, regular mais, e fingir que a aritmética é um detalhe técnico para os contadores resolverem depois. Pois bem, a aritmética chegou. E veio com juros.

O roteiro é tão previsível que dá tédio. Sobe a expectativa de gasto público, sobe o prêmio de risco nos gilts, foge capital, derrete a moeda, encarece importação, dispara inflação, e aí o governo descobre, com olhos arregalados de quem viu fantasma, que existe algo chamado realidade orçamentária. O britânico médio, aquele que enche o tanque do carro em Birmingham e paga a conta de luz em Liverpool, vai sentir essa derrocada no supermercado dentro de noventa dias. Ele não votou nisso. Ninguém vota em inflação. Ela é sempre a parte do programa que o candidato esquece de mencionar no comício.

E aqui está a parte que a imprensa de Londres não vai contar com a clareza devida. Toda emissão monetária para financiar gastança é um imposto invisível, o mais covarde de todos os impostos, porque não precisa passar pelo parlamento, não precisa de assinatura, não precisa nem de debate público. O sujeito acorda numa terça-feira e descobre que seu salário compra menos pão. Quem ganhou? Os primeiros a receber o dinheiro novo, ou seja, o governo, os bancos credores e os contratados do Estado. Quem perdeu? O último da fila, sempre o último da fila, o trabalhador, o aposentado, o pequeno comerciante. Siga o dinheiro e você encontrará o esquema. É sempre o mesmo esquema desde que inventaram a impressora.

Há ainda o detalhe quase cômico de Starmer ter herdado uma economia que já era frágil e ter conseguido, em menos de dois anos, transformar fragilidade em colapso de confiança. O mercado de títulos não é antipático aos trabalhistas por ideologia, o mercado de títulos é simplesmente uma máquina fria de calcular risco, e quando vê um governo anunciando expansão de gasto sem contrapartida produtiva real, ele faz aquilo que sempre faz, exige prêmio maior ou some. Não há discurso bonito de quinta-feira no parlamento que convença um gestor de fundo soberano em Cingapura a aceitar rendimento real negativo em libras. Não funciona assim. Nunca funcionou.

O mais irônico é que o Reino Unido já passou por isso antes, várias vezes, e parece ter desenvolvido uma incapacidade institucional de aprender com o próprio passado. Os anos setenta, com o FMI socorrendo Londres como se fosse república bananeira, deveriam ter sido lição definitiva. Mas a tentação de gastar o dinheiro alheio é mais forte que a memória histórica, e cada nova geração de políticos acredita, com fé religiosa, que desta vez será diferente porque eles são mais inteligentes, mais sensíveis, mais comprometidos. Não são. Nunca foram. A aritmética continua sendo a mesma desde Diocleciano.

Starmer vai tentar o de praxe nas próximas semanas, anunciar "ajuste responsável", chamar o chanceler para uma coletiva técnica, falar em "compromisso fiscal de médio prazo", e torcer para que os mercados engulam o teatro. Talvez engulam por algumas semanas. Talvez não. O que não vai mudar é o fato simples e brutal de que governos que vivem acima da própria arrecadação acabam todos no mesmo lugar, mendigando confiança que destruíram com as próprias mãos. A libra de hoje é a coroa de espinhos do trabalhismo de amanhã.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.