A PPL Corporation supera estimativas no primeiro trimestre, anuncia pipeline de 28 GW de novas conexões e a imprensa financeira trata o número como se fosse prova definitiva da vitalidade do livre mercado americano. Olha, calma. Antes de aplaudir, convém perguntar de onde vem essa demanda monumental, quem aprova as tarifas que vão remunerar o investimento e quem assina o cheque no final do mês. Quando se faz essas três perguntas, a história muda de figura, e o suposto triunfo capitalista revela seu DNA verdadeiro, que é o de um arranjo regulado, blindado da concorrência e desenhado para transferir risco do investidor para o cativo.
Utility de Pensilvânia e Kentucky não compete com ninguém. É monopólio territorial regulado, com taxa de retorno garantida por comissão estadual, com base de ativos remunerada por décadas e com a benção institucional de transformar cada quilômetro de linha nova em ativo rentável até o juízo final. Nesse modelo, anunciar 28 GW de pipeline não é proeza empreendedora, é encomenda de impressora de dinheiro autorizada por agência reguladora. Quanto maior a base de ativos, maior o lucro garantido. O incentivo é construir, construir e construir, mesmo quando a engenharia mais barata seria não construir nada.
Entra em cena o personagem da temporada, o data center de inteligência artificial. A narrativa é tão sedutora que ninguém faz a pergunta incômoda. Por que a hyperscaler, que vale trilhão de dólares, não banca diretamente a infraestrutura que consome, em contrato bilateral, com risco próprio, ao preço de mercado? Por que precisa de uma utility regulada como intermediária? A resposta é constrangedora. Porque o arranjo regulado permite socializar o custo de capital com o consumidor residencial via tarifa, enquanto privatiza o ganho com o cliente industrial via contrato preferencial. O bilionário entra com a demanda, o regulador chancela o investimento, a utility constrói com dinheiro emprestado barato, e a dona de casa de Allentown paga a diferença na fatura de cada mês.
Há uma palavra antiga e desconfortável para isso, e ela não é inovação. É privilégio. É o velho mercantilismo redesenhado com roupa de Silicon Valley, onde o capital se alia ao poder regulatório para extrair renda do contribuinte cativo, enquanto a propaganda corporativa convence o leitor de jornal econômico que aquilo é dinâmica de mercado. Não é. Mercado de verdade tem entrada livre, falência possível e preço descoberto por concorrência. O setor elétrico americano regulado tem entrada vedada, falência impossível e preço determinado em audiência pública por servidor que jamais correu risco com dinheiro próprio.
O mais bonito da peça é o discurso ambiental que justifica tudo. Transição energética, descarbonização, infraestrutura para o futuro, todas as palavras certas para anestesiar a crítica. Mas a transição custa, e o custo aparece em algum lugar. Como ninguém quer dizer ao eleitor que a fatura vai dobrar, inventa-se a engenharia financeira que dilui o aumento em décadas, embute em rubricas que ninguém lê, e fatia em reajustes que parecem pequenos individualmente. O resultado consolidado, daqui a dez anos, será um dos maiores transferências de renda da classe média para grandes corporações que a história recente já viu, e tudo com aplauso da imprensa especializada.
Enquanto isso, o investidor da PPL comemora, e tem razão de comemorar dentro da lógica do jogo. Comprou uma concessão pública vestida de empresa privada, com fluxo de caixa praticamente garantido por lei e demanda artificialmente inflada por uma bolha tecnológica que o próprio Estado ajuda a criar via subsídio, isenção e contratos preferenciais. Não é capitalismo. É feudalismo elétrico com ações listadas em bolsa. E o servo, como sempre, é quem acende a luz à noite sem saber que está bancando o castelo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.